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Arma sem balas

por Ana sem saltos, em 18.04.17

Abre as portadas todas de casa, janelas escancaradas de par em par, e o quente da lareira esfumaça-se, evapora-se, é engolido pela brisa gelada de janeiro que entra casa a dentro sem cerimónia.

Continua descalça e em camisa de dormir,

imune ao frio e ao quente, imune a tudo, carregada de nada,

 

abre as camas, sacode os lençóis, puxa as cobertas para trás numa fome insaciável de limpeza.

Entra na casa de banho, ajoelha-se no chão e esfrega a banheira com lixívia, depois os azulejos, um a um, brecha a brecha, levanta-se e limpa o espelho com  papel de jornal. Troca as toalhas, estende as de lavado, tira a cortina do duche e põe para lavar também.

Faz tudo de forma ritmada, nem rápido, nem devagar, faz, só, de forma mecânica, séria e gelada.

Limpa, esfrega, arruma, respirando devagar. Calma, terrivelmente calma.

Foge da mente, foge do nó,

Foge do caminho que não encontra, da lágrima que já não vem.

 

Limpa, arruma, esfrega, sacode.

Da janela escorre o dia para dentro de casa,

Entra o fora no dentro,

Entra o frio levando o quente,

 

lindo, vigoroso, mas implacável e gélido.

 

E de forma mecânica ela continua, indiferente ao frio e às mãos que sangram, indiferente à indiferença pesada e sinistra que a devora por dentro.

Passam os minutos que se transformam em horas.

Para, finalmente, e olha à volta. Sorri a boca, em reação sem coração, satisfeita e gelada com o gelo limpo e branco da casa.

Só então a invade o cansaço físico, nas costas que doem, nas frieiras em sangue das mãos, nos joelhos esmurrados. Só então sente no corpo a dor de dentro, ainda que vendo com os olhos o imaculado da casa, branca e brilhante, vazia de bactérias e pó. Olha o relógio da parede, de súbito perdida, de súbito em pânico, olha-se depois no espelho, de súbito triste, de súbito desiludida, vendo a imagem que lhe devolve o reflexo,

mulher imaculada, triste e despenteada. Mulher de boca que ri e olhos que não choram.

 

Engole o soluço seco de lágrimas.

Ouve a chave na porta, salta-lhe o coração, finalmente vivo e desritmado, finalmente numa batida imprevisível.

Sente uma satisfação estranha no pavor que a invade, olha mais uma vez a casa imaculada e gelada,

 

- Querida, cheguei! Que frio é este endoideceste?

 

Sobe as escadas, descalça, despenteada, fria, ferida.

Entra no quarto, abre a gaveta e tira a arma.

 

- Onde estás?

 

A voz de sempre lá em baixo, consegue pressentir o susto, o medo, o amor em excesso que não lhe cabe, que não merece. Mas está tudo fora de si, paira em seu redor, a vida, os segundos, o amor e a dor,

pressente mas não sente.

 

Ouve os passos rápidos a subir as escadas.

 

Coloca o cano na boca,

a porta abre,

ele entra,

e ela dispara.

E no ar vazio e gélido, limpo e imaculado, do quarto, na casa, no monte, no nada, ouve-se um clique surdo de arma disparada sem balas.

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2 comentários

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De j.campião a 12.10.2017 às 13:50

Perturbador.
Escolhes cenários, escolhes personagens que escolhem o que fazer dentro dos cenários do teu texto. Gosto muito da tua diferença... ou da tua indiferença em relação à "normalidade".
Gosto muito do que escreves no modo como escreves.
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De Ana sem saltos a 12.10.2017 às 16:30

Caro j.campião, fico lisonjeada com o seu comentário :)
Obrigada pelas suas últimas visitas!

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