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Obrigada.

por Ana sem saltos, em 17.07.17

De tempos a tempos era assim que fazia. Em recebendo as primeiras ameaças de descalabro, naqueles dias em que nada conjuga, os segundos não se alinham, o fio condutor das coisas e da vida estoira em bomba invisível, fazia tão somente assim:

Para [do verbo parar].

 

Primeiro o corpo, parado numa qualquer posição, braços para baixo, ar travado no peito, olhos focados no último segundo que lhe virou a alma.

Depois a cabeça. Enorme barragem ao rio furioso e descontrolado de pensamentos, todos entupidos ali, apena por uns momentos.

 

E, então, o maravilhoso vazio. O tão apreciado silêncio.

Só assim, parado o tempo e a velocidade dos segundos, parado o olhar naquela que foi a última gota de água, parado o corpo em jeito de pausa, sem ar nem para dentro, nem para fora,

só então,

 

ouve em chilrear de passarinho, o coração ao fundo, em jeito breve de onda de verão, cheiro a lar e flor de jasmim.

Desculpa se me esqueço de ti...

 

E ele fala, baixinho, muito baixinho, mas fala, sempre.

Sábio é aquele que sabe parar só para me escutar.

 

E agora sim, já podes, expira, abre as portas à barragem, deixa ir o rio, fecha os olhos e bebe o escuro, cai de joelho no chão, ainda que doa, muito, mais do que parece suportável, e agradece.

Agradece tudo.

Agrade sempre.

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Amante de linhas

por Ana sem saltos, em 05.07.17

Sento-me na borda do muro, atiro os pés para a frente, largo-os ao acaso, como se os abandonasse, como se deixassem de ser meus.

E vejo-os, ali, no ar, balançando sem chão nem comando.

A hora é aquela que inspira os poetas a cravar o papel em tons de adeus. Luz morna e laranja, das que fazem das sombras enormes castelos.

Olho ao fundo o mar. Tão calmo e soberbo, tão infinito, na impossibilidade dos meus olhos lhe verem o fim.

 

Há mais além da linha do horizonte, ao fundo, recortando o mar em céu. Haverá com certeza mais, tem de haver, pois se todos os dias a vejo engolir o sol, sem pressas nem pudor.

Todos os dias igual, esta linha que come luz, todos os dias surpreendente naquilo que, ainda assim, é sempre diferente.

Dia,

após dia,

após dia.

 

Repete-se em mim a inevitabilidade do tempo.

E eu repito-me também,

é-me indiferente,

naquilo que vejo, serena, o tempo mudar em mim.

 

É assim, também, com o sonho que entorno,

sempre igual, naquilo que o torna diferente,

 

naquela linha perfeita que todos os dias devora o sol.

 

Apagam-se, então, as luzes. 

Já não há castelos de sombras.

Recolho os pés para cima, assumindo-os, novamente, como meus.

 

Sou amante assumida de linhas.

Principalmente das que se alimentam de luz.

 

 

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Adeus em tons alfacinhas

por Ana sem saltos, em 01.07.17

Sentada na popa do navio, observo, ofegante, o quadro que o mundo me dá, ali, visto do lado de quem se vai. E ainda só pressinto,

não sinto,

as cores, as formas, os cheiros. Bebo tudo sôfrega.
É triste e melancólica a imagem que em mim carimbo, ali, em cheiro profundo de rio e adeus.

Acima da colina e do castelo, engolido em molhos verdejantes de árvores, desenham-se, aleatórias e desordenadas, nuvens em explosões de branco e azul e cinzento. 
E a sensação primeira, no balançar da maré, é tão somente de enjoo, aquele que faz prever a chuva que cai sem cerimónia, em soluço do céu.

Expiro-te Lisboa.

Ao fundo, espalhadas no chão, as casas asseguram-me, então, uma espécie de paz, num contraste absurdo com o caos escuro de rio e nuvem. Despontam brancas e amarelas e grandes e pequenas, todas quentes, todas diferentes, num amontoado morno e feliz de lares. 
E respiro, então,

Inspiro-te Lisboa,

cidade quente, branca e brilhante. 
Sei que me vês, ao fundo, sei que me acenas em despedida de maresia. E eu bebo-te toda, cidade que me viste menina, nesta obra em aguarela de alma.

E cravo, cá dentro, todas tuas curvas,

Lisboa menina e moça, Lisboa cidade maravilhosa.

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