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Sempre capaz meu amor.

por Ana sem saltos, em 24.06.17

Entra no quarto. A noite caiu ainda agora, e na penumbra morna e de cheiro a criança, vê-lhe o corpo pequeno no descanso que dá sol ao seu coração de mãe.


O dia passou.

Mais um.


E dorme a menina,
e olha-a a mãe.

E nada no mundo é mais forte, nada no mundo vale mais, nada no mundo é mais assustador do que ter o coração assim exposto, a bater num corpo pequenino,

fora do peito,

dormindo num quarto morno e cor de rosa.

Senta-se à beira da filha e fecha os olhos.

Sei-me capaz.

Capaz apenas, o ponto não é o fim. O fim ficará lá a frente, não sei onde, se o tempo não me mora nem pertence. E graças a Deus que assim o é.

Por mais que se alinhem as estrelas, não sou escrita nem prevista.

Sou apenas capaz.

Capaz apenas, e o ponto não é final, é um ponto apenas, e eu, eu não sei nada, mas arrumo-me nos segundos que se acumulam, e me formam, e me tiram, e me dão.
De todos os vértices que me fazem, vejo, por fim, que não sou quadrada. Mas a linha que me une chegou de novo ao início.

E vejo-me de cima, quando no escuro dos olhos consigo caminhar às cegas para o sonho.

Caramba filha, sou um círculo,

não vejo nem prevejo nem o princípio e muito menos o fim...

E morra a carne, pouco importa.

Sou capaz de vida, de sonho, de linhas que me correm os pontos.

Sou capaz de ti, já viste?


Olho para ti aí a dormir. Tão pequenina minha menina. Não me ouves, pouco interessa. Despejo-te em murmúrio de canção de castelos e passarinhos, estas palavras que em mim voam. E talvez seja melhor assim. És linda e pequenina, e pode ser que assim te cosa um sonho de menina princesa. Onde mesmo pequenina serás capaz.

Sempre capaz meu amor.

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Dança do vinho

por Ana sem saltos, em 22.06.17

Entorna, derrama a vida que verte da garrafa em forma de última gota. E o sangue que lhe corre nas veias, verte também em lágrima lambida, na cara, no corpo, na mão, no chão.

Bebe de um trago o resto minúsculo do copo sujo. Inclina o pescoço para trás, lambe o copo por dentro, numa procura desesperada de saciar aquela sede insaciável de embriaguez. Do momento em que sai de si e da casa e do corpo e do copo na mão, do momento em que evapora, em mancha etérea e vermelha, a lágrima última e derradeira, e mergulha, então, num estado de alma vazio e embrionário, no inicio de tudo mesmo antes do fim.

E é no nada que a ignora, no nada que em nada a define, é naquele breve momento em que ainda acordada se perde de si, no corpo e na alma, no silêncio vazio da voz e coração, que encontra, por fim, a paz. São segundos apenas, talvez nem isso, réstias de segundos separados entre si, e a paz nem é propriamente paz, é tão somente um vazio, escuro e profundo, que a engole faminto mesmo antes de a levar para a inconsciência.

 

Mas naquela noite, a gota não chega, e é a última do copo e da garrafa e da cozinha e da dispensa.  

 

Larga a garrafa e o copo.

 

Inspira fundo, ergue-se a medo da cadeira. Fecha os olhos e vê em alegre pânico, que ainda está em si.

Põe-se em pontas, levanta devagar a perna esquerda para trás. Inclina o corpo para a frente, sustendo-a apenas, o corpo e a leve embriaguez, as pontas dos dedos do pé direito. Inspira e expira contando os segundos, corpo direito, pescoço erguido,

e a gota da garrafa, ali, entornada no chão.

 

Desiste. Suporta de novo o corpo pesado nas duas pernas.

Abre os olhos, e olha à volta. O mundo roda sobre si, apesar da gota vertida no chão. Ergue os braços, esticados, direitos, infinitos, ergue o queixo, altivo na sua bêbeda  pequenez, e sorri. Lembrava-se ainda dos passos de ballet.

 

Esquece então o vácuo vazio, mole e peganhento. Esquece o medo e a procura incessante de nada. Esquece a lágrima, vertida e lambida, que lhe corre em rio de dentro para fora.

Roda sobre si, ignorando o enjoo e a tontura,

Seria da roda

Seria do vinho

Seria da bebedeira de alma que mesmo sóbria sempre lhe mora,

 

e roda uma vez mais, e outra e outra. Ergue a perna, dobra-a e toca com o pé esquerdo no joelho direito. Roda, ainda mais rápido. Roda ela e o mundo, em passo de dança de cisne, ocupa leve e etérea, solta e livre, a sala, a casa, o mundo e o céu.

 

E então é elevada no ar. Abre os olhos, num susto tonto. Roda o mundo, ainda, em reflexo da dança do vinho, e é elevada do chão segura pela cintura pelas mãos fortes dele. Roda-lhe o mundo ainda, em remoinho de água de chuva miúda, mas ele olha-a de frente, parando o triste rodopio, numa dança agora a dois.

Fundem-se as lágrimas e a tontura, ela vê-o mas longe, ele vê-a nas mãos, ali erguida dançando para si.

 

- Bebeste de novo?

 

Mas ela não o ouve. E a gota que não chega evapora do chão, e ela bebe-a de olhos fechados, rodopiando esticada, altiva e direita, segura no tronco da metade de si.

E então vai de novo, naqueles segundos que nem chegam a ser segundos, para o vazio que a recebe antes de adormecer.

 

E o corpo esguio e em rodopio, amolece num abraço que a acolhe.

 

Ele ajoelha-se no chão, com a embriaguez dela nos braços, encosta-lhe a boca na testa, e cheira-a chorando em soluço, sem o medo de ser tomado como fraco, assumindo a angústia perante a sua impotência, sem aplausos nem audiência para aquela dança que lhe leva a esperança. Chora entregue ao corpo mole e adormecido no seu abraço.

E ela de olhos fechados, sorrindo talvez, perdida uma vez mais no vazio de um sono sem sonhos.

E com a boca na testa, segura-a com força, aperta-a contra si, e sussurra entre o cheiro, o cabelo, as lágrimas misturadas dos dois,

Amo-te tanto... Sai daí, e volta para mim.

foto-post-paola-novaes-2.jpg

 

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