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Livro de vida (IV)

por Ana sem saltos, em 23.05.17

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

Terceira parte aqui

 

Há uma coisa importante que te devo dizer, antes de te contar a minha, que é a nossa, história. O amor, ao contrário do nos é imposto, do que aprendemos nas regras e culpas, atos e omissões, não tem forma e formato. O amor é antes uma forma de ser e sentir, e pode estar presente em qualquer momento da nossa vida, na amizade, na tristeza, na fé, na euforia. Na carne também, ainda que não seja esta a regra única e última de concretizar a urgência no amor.  Não sendo eu a mais sábia, creio que te posso afirmar agora, no fim da linha daquela que foi a minha vida. A única regra que baliza este que é o sentimento que nos inspira e aspira a poetas, é a entrega. Sem entrega, minha querida, não há nada, na verdade, mas muito menos há amor. E foi por isso que demorei tantos anos a perdoar a minha mãe, senhora altiva e imponente, depois de a ver ali, entregando-se no cume de si, sem olhos nem espartilhos. E agora que penso... foi a única vez que não lhe senti gelo na voz.

 

De volta a casa e às regras, novamente com rédea em si, Vera foge para o quarto, e depois de se secar deita-se na cama, inerte e exausta.

Há na lágrima um estranho poder de libertação. Ainda que não cure a dor, liberta-nos da tensão, e agora sentia-se profundamente cansada.

Batem à porta interrompendo-lhe o reconfortante vazio que conquistara para si. Vera senta-se na cama, de repente ansiosa e assustada, e se lhe vissem o que viu?

 

- Não me sinto bem, estou deitada.

 

Do outro lado um silêncio de eternos segundos.

 

A porta abre e a mãe entra.

Vera engole a raiva e o medo, e olha de frente a mãe. Sente a cara a ferver, num vómito surdo de perguntas que não pode fazer.

 

- Levanta-te. Hoje temos um jantar, o teu pai deve estar a chegar e convidou o novo médico. Tens meia hora para te arranjares.

A mãe vira-se novamente, direita e alta, linda e dura. Vera olha-a de trás, nunca seria assim, direita no torto, impecável no sujo, e sente-lhe um ódio profundo.

- Mãe?

 

A mãe vira-se e olha-a de cima, bonita e direita, linda e dura, uma estátua altiva, perfeita, gélida. Sorri para a filha, mas nos olhos, lá no fundo do poço azul, vê-lhe mais. Mágoa?

 

- Por amor de Deus Vera. Endireita-te. E arranja-me esse cabelo, não sejas vulgar.

Vera baixa o olhar, invadida, derepente, por uma vergonha enorme.

Vulgar. Não sejas vulgar.

E não perguntou, evidentemente, aquilo que nem sabia perguntar.

A porta bate, e ouve-se em eco nas paredes

És uma senhora Vera, é isso que esperamos de ti.

 

 E Vera levanta-se, olha-se no espelho,

ser sem parecer, vulgar na cara e no andar,

e escova com força o cabelo, negro, farto e solto, procurando restabelecer, ali, nos fios emaranhados e molhados de cabelo, a ordem na desordem de si.

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Livro de vida (III)

por Ana sem saltos, em 12.05.17

 

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

 

A sensação primeira, foi a de queda no abismo. Queda a pique no vazio.

A reação à queda foi a de fugir. Abrir a porta e andar, andar depressa e a direito, passadas em frente, na procura de um destino ao soluço que a entope por dentro.

Não existe propriamente um pensamento, uma racionalização, só uma raiva enojada, um enjoo dorido e peganhento, e de repente o espaço é pequeno, as paredes esmagam-na, os castiçais e serviços de prata, os criados e as salas e salões, de repente o grande e bonito é minúsculo e sinistro, e esmaga-a, pisa-a de cima, mostra-lhe o pó por de trás das molduras.

Um vida inteira direita e regrada, tão bonita de se ver de fora, na casa e jardim, nome em figuras de cristal, a família elegante e imponente,

Uma senhora senta-se direita.

Uma senhora não se ri, sorri

Uma senhora não chora, sorri,

engole a lágrima, não sejas vulgar.

Endireita-te, olha para baixo,

Não interrompas, concorda,

Não fales de mais,

Não te cales tanto,

Segue atrás o teu pai, baixa o olhar,

Ajoelha-te na igreja, comunga de olhos fechados,

 

És uma senhora Vera, há um nome que carregas. Endireita-te e sorri,  é isso que esperamos de ti.

 

Dá-se conta, de repente, que não respira. Não sabe há quanto tempo, continua em frente direita, em passada rápida e ritmada, o céu escurece de forma drástica,

Costas direitas, não sejas vulgar,

Estarei a sorrir?

 

e o céu estoira em pranto.

E Vera expira, finalmente, num grito surdo que solta para dentro. Ensopada por fora, cabelo emaranhado, molhado, despenteado,

uma senhora...

 

o vestido cola-se nas pernas, sente peso no andar. Ao fundo vê a capela, e sente esperança, de súbito, no conforto dos bancos de madeira, cheiro a incenso e fé, para de andar e começa a correr, finalmente com um destino aos passos e lágrimas, finalmente com esperança de calma e respostas. Ordem. Desejo profundo de ordem na desordem.

Sobe as escadas, e a porta grande da pequena capela está fechada. Chove a cântaros, percebe, de repente, que a sua figura deve assustar, percebe, de repente, que a porta está fechada.

Não há ordem na desordem, nem respostas às perguntas.

Vera, que se espera senhora, é menina apenas, e não sabia do verniz que estala, não sabia da aparência que apenas parece, não sabia de nada, afinal. Senta-se nas escadas, já indiferente à chuva e ao que pode parecer vista de fora, indiferente ao vestido enlameado e pesado, à cara sem sorrir e assumidamente a chorar, é vulgar apenas, no choro em chuva em coro com o céu.

 

- Precisa de ajuda?

 

Assusta-se, levanta a cara, e olha à sua frente um rapaz senhor, como ela menina senhora, direito, alto, debaixo de um enorme chapéu preto. Baixa-se, entrega-lhe o chapéu e tira o casaco para lhe cobrir os ombros. Senta-se ao seu lado e acende um cigarro.

E Vera esquece que tem um nome e um peso, esquece que chove por dentro e por fora, esquece o que lhe esperam, de que lhe vale afinal?

 

- Peço desculpa, eu, bem, desculpe...

- Chamo-me João, cheguei agora. Esteja à vontade, a sério.

 

E encosta a cabeça no ombro do rapaz senhor, finalmente abrigada da chuva de fora, libertando sem pudor a chuva de dentro.

Só então permite que lhe venha em tiro a imagem,

 

Passa o corredor, é hora do chá,

o pai não está mas a mãe vai gostar de me ver a horas,

 

 

lembra-se do leque da mãe, volta atrás, tão bem posta e orgulhosa de saber as regras, mas não é perfeita,

és tão vulgar Vera,

tão gélida e limpa a sua voz, mãe,

 

 

e entra sem bater no quarto dos pais.

E o que primeiro não percebe em penumbra morna e de novo cheiro, visualiza em murro no estômago,

uma senhora não ri,

 

a gargalhada gemida de baixo dos lençóis,

Uma senhora não quer,

 

e a senhora querendo ali, deixando-se querer, despida, no vulto, nos vultos dos dois que não conhece,

Reconhece?


a mãe e o outro, no cheiro, na carne, no escuro, no riso, ombros, cabelos, mãos e pernas.

Uma senhora bate à porta Vera, endireita-te.

 

E Vera bate a porta e sai, engolindo o vómito que lhe sobe sem aviso a garganta.

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Livro de vida (II)

por Ana sem saltos, em 10.05.17

(Primeira parte aqui)

 

Olho-te daqui, do alto da minha experiência, do alto do fim, na verdade, porque falta um pequeno salto, consigo sentir. Mas nos olhos que te dei, novos e brilhantes, revejo parte de mim na esperança cansada, mas esperança ainda assim, e sei que vais sofrer. Vais sofrer minha querida, porque quem tem brilho e esperança, por mais que se canse, não deixa de sonhar. E sonhar, meu amor, é a única coisa que te exijo, mas aviso-te desde já: sonhar faz chorar.

 

- És feliz minha querida?

Ana sorri, Ana a menina crescida, mulher criança e esperança, sorri de verdade olhando o copo de vinho.

- Oh avó, tenho muita sorte na vida.

- Não foi isso que te perguntei.

 

Vera a matriarca, a sempre mãe, avó e mulher, balança a cadeira de forma leve e ritmada, olhos de mil anos que vêm muito além do que se olha. Olha a neta, e espera-lhe abertura, palavras e coração.

 

- Sou avó. Acho que posso dizer que sou.

- Ainda bem. Ainda bem minha querida.

 

Ficam assim as duas, uns segundos em silêncio, esperam e escutam-se ainda no que se conta sem palavras. E então a avó, matriarca e senhora da fé e do destino que passou, para a cadeira, pousa as mãos antigas no colo, e diz fechando os olhos:

- Conheci o teu avô num dia de chuva.  

 

Dentro de si, nas imagens que a escuridão lhe permite voltar a reviver, Vera passa em vendaval de tempo de senhora a menina, e está sentada nas escadas da capela, debaixo de uma chuva furiosa. Chove-lhe em cascata o coração também, jovem e inocente, doce e frágil, endurecendo naquela que é a dor gritante e aguda de uma primeira desilusão.

 

(Continua aqui)

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