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Livro de vida

por Ana sem saltos, em 26.04.17

Dia de verão, quente e longo, lá, na casinha, no monte, na aldeia. Dia de verão, de cheiro a fruta, a terra seca, dia de brisa quente, em fim de dia lento,

lento no tempo e no espaço, morno como suspiro de amantes.

 

Senta-se no alpendre, abre a boca, e engole aquele ar denso, cheio de cheiros e minutos, cheio de vidas e segundos.

Sente no corpo a passagem voraz dos dias em meses, dos meses em anos. 94 primaveras, verões, outonos e invernos, um desdobrar imenso das estações que se repetem, tornando-a ali, tanto tempo depois, única. Única nas mãos, única na voz, única nas palavras que acumulou, guardou, enfatizou dentro de si.

 

Baloiça a cadeira e fecha os olhos,

Se eu fechar os olhos ninguém me vê...

 

Sorriu à lembrança destas palavras, que, não sendo verdade absoluta, foram verdade imperativa para si, sempre que, em pânico, alegria, dor profunda ou euforia, fechou os olhos e encontrou-se no escuro de si.

 

- Ana?

Chama de olhos ainda fechados, livre e solta no mundo que ali encontra, nova em velha nas histórias que para si reconta, baloiçando a cadeira, no alpendre, na casa, no monte, na aldeia. E a voz sai-lhe antiga também, frágil e baixa, em timbre cantado de histórias contadas ao ouvido de quem se ama.

 

- Dois segundos avó, já aí vou!

 

Dança de brisa, de olhos fechados, em dia mole e morno, denso e palpável, como se quer um fim de tarde de verão.

E então decide ali que está na hora, antes que as horas deixem de se repetir.

Abre a boca e repete em sussuro rebuscando os cantos das memórias de si:

- Ana, minha querida, chega aqui.

A minha vida é um livro e eu quero lê-lo para ti.

 

(Continua aqui)

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Arma sem balas

por Ana sem saltos, em 18.04.17

Abre as portadas todas de casa, janelas escancaradas de par em par, e o quente da lareira esfumaça-se, evapora-se, é engolido pela brisa gelada de janeiro que entra casa a dentro sem cerimónia.

Continua descalça e em camisa de dormir,

imune ao frio e ao quente, imune a tudo, carregada de nada,

 

abre as camas, sacode os lençóis, puxa as cobertas para trás numa fome insaciável de limpeza.

Entra na casa de banho, ajoelha-se no chão e esfrega a banheira com lixívia, depois os azulejos, um a um, brecha a brecha, levanta-se e limpa o espelho com  papel de jornal. Troca as toalhas, estende as de lavado, tira a cortina do duche e põe para lavar também.

Faz tudo de forma ritmada, nem rápido, nem devagar, faz, só, de forma mecânica, séria e gelada.

Limpa, esfrega, arruma, respirando devagar. Calma, terrivelmente calma.

Foge da mente, foge do nó,

Foge do caminho que não encontra, da lágrima que já não vem.

 

Limpa, arruma, esfrega, sacode.

Da janela escorre o dia para dentro de casa,

Entra o fora no dentro,

Entra o frio levando o quente,

 

lindo, vigoroso, mas implacável e gélido.

 

E de forma mecânica ela continua, indiferente ao frio e às mãos que sangram, indiferente à indiferença pesada e sinistra que a devora por dentro.

Passam os minutos que se transformam em horas.

Para, finalmente, e olha à volta. Sorri a boca, em reação sem coração, satisfeita e gelada com o gelo limpo e branco da casa.

Só então a invade o cansaço físico, nas costas que doem, nas frieiras em sangue das mãos, nos joelhos esmurrados. Só então sente no corpo a dor de dentro, ainda que vendo com os olhos o imaculado da casa, branca e brilhante, vazia de bactérias e pó. Olha o relógio da parede, de súbito perdida, de súbito em pânico, olha-se depois no espelho, de súbito triste, de súbito desiludida, vendo a imagem que lhe devolve o reflexo,

mulher imaculada, triste e despenteada. Mulher de boca que ri e olhos que não choram.

 

Engole o soluço seco de lágrimas.

Ouve a chave na porta, salta-lhe o coração, finalmente vivo e desritmado, finalmente numa batida imprevisível.

Sente uma satisfação estranha no pavor que a invade, olha mais uma vez a casa imaculada e gelada,

 

- Querida, cheguei! Que frio é este endoideceste?

 

Sobe as escadas, descalça, despenteada, fria, ferida.

Entra no quarto, abre a gaveta e tira a arma.

 

- Onde estás?

 

A voz de sempre lá em baixo, consegue pressentir o susto, o medo, o amor em excesso que não lhe cabe, que não merece. Mas está tudo fora de si, paira em seu redor, a vida, os segundos, o amor e a dor,

pressente mas não sente.

 

Ouve os passos rápidos a subir as escadas.

 

Coloca o cano na boca,

a porta abre,

ele entra,

e ela dispara.

E no ar vazio e gélido, limpo e imaculado, do quarto, na casa, no monte, no nada, ouve-se um clique surdo de arma disparada sem balas.

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Encontra-me

por Ana sem saltos, em 10.04.17

Acorda em sobressalto. Não era a primeira vez. Agora, todas as noites, via-se arrancada dos sonhos à bruta. Senta-se na cama e espera, ofegante, que passe o susto de não se saber mais.
Desta vez levanta-se. Não era dia, ainda, mas também não era noite. Abre a porta de casa e recebe em dádiva o cheiro de uma manhã de primavera,
Contraste absurdo com a tempestade

de,

em,

por si.


Sai de casa, descalça, de alma vazia e flutuante, e desce em ponta dos pés para o jardim. Deita-se na relva, húmida das noites ainda frias, e olha o céu.

Não é negro, não é azul.

Não tem estrelas, não tem sol.

Indefinido ali, em tons de roxo e lilás,

mancha soberba de cor sem nome,

céu enorme, sem cara, sem nada.

 

Desponta apenas, lá no alto, uma lua minúscula que se despede em minguante faminto, ridícula naquela imensidão sem rosto.

Ergue as mãos e olha-as de forma demorada.

Abre-as. Fecha-se. Roda-as sobre si.
Encontra sempre nas mãos uma resposta qualquer. Olha os dedos, as palmas, as unhas. Estão fortes ainda, decididas no abrir e fechar, parar e rodar.

Toca a cicatriz que tem na palma. Agarra uma mão na outra, enlaça os dedos da direita na esquerda, une-as num abraço apertado,

de si, para si.

 

Alma perdida em desassossego, na busca incessante e exaustiva de tudo.

Mas sabe-se, então.

Sabe-se, sabendo quase nada, que enquanto se identificar nas mãos, pode chorar, dormir e acordar, pode correr, procurar e esperar, porque ainda que não se encontre, está, algures, lá. Seja esse lá onde for.

Levanta-se, apoiando as mãos no chão. Ao fundo, no monte, o sol já desponta no céu. E o lilás, que não é lilás, começa a assumir agora o azul do dia. Assusta-se com o vulto sentado no chão, olhando-a fixo de frente.

Amor de sempre, amor para sempre.

 

- Assustaste-me, o que estás aí a fazer?

Mas ele não lhe responde. Olha-a fixo, sentado no chão. Olha-a para dentro, como se nem se quer a visse por fora, sério e absorto, com as palmas abertas pousadas no chão.

Ela ajoelha-se à sua frente. Olha as mãos no chão, e só então expira. Aproxima-se devagar, e põe também ela as palmas na relva, frente a frente com as mãos dele.

Destino traçado e unido nos vincos das palmas,

História vivida, no atropelar dos dias, incessantes na passagem, na descoberta, na procura, no desencontro, no perdão.

 

- Perdi-te?

Pergunta-lhe por fim.

 

Ela levanta as mãos do chão, e pousa-as nas mãos dele. Apoia-se e inclina-se para a frente, aproxima a cara da dele, até ficarem separados apenas por milímetros. Olha-o fundo nos olhos,

Mão direita na sua mão esquerda, mão esquerda na sua direita,

 

- Não meu amor. Encontraste-me.

Acabaste de me encontrar.

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Menina, mãe e mulher

por Ana sem saltos, em 03.04.17

- Sou pequenina, não vês?? Não vês que sou pequenina!

Ela olha-a zangada, vendo a fúria da filha ser engolida pelo desespero, na frase que solta em berro chorado.

E a zanga que sentia, ela mesma, há dois segundos atrás, é então substituída pela surpresa. E a surpresa entrega-lhe em chuva miúda a sensação de queda no vazio, a inesperabilidade de, de repente, não saber como reagir.

E a menina ali, à sua frente, chorando em desespero, zanga e coração, tudo ali exposto, terrível e sinceramente espalhado nas pernas, pele, olhos e lágrimas...

Que sorte tens minha filha... que sorte tens.

 

Limpa-lhe as lágrimas, e toma-a no colo, expulsando-lhe o desassossego e angústia num abraço. Apaga-lhe os medos e a fúria cheirando-lhe o pescoço.

Devia manter-se firme, mas, e sem nunca ter confessado a ninguém, questiona-se se este ceder constante às vontades implacáveis da filha, este poder que, por enquanto, ainda exerce de lhe poder devolver a alegria apenas com um abraço, reconfortará mais a filha menina, ou a mãe mulher.

Larga as palavras que a assombram, cospe-as para bem longe de si, e entrega-se ao quentinho insubstituível do choro ceder na dança, e dar lugar ao sono que vem sem aviso, tão inesperado e repentino como qualquer reação da menina. Conta-lhe a respiração em palavras cantadas baixinho,

Inspira...

Expira meu amor.

 

Só depois de entregar a filha ao sonho, se senta a mãe

A mulher?

 

com o fruto de si seguro no colo. Olha aquele corpo pequenino, ali encaixado em si, como se nunca tivesse esquecido o caminho que a fez pessoa no seu corpo mãe.

Relembra a explosão da filha, indignada com a zanga da mãe, e então inveja a menina, coração  fúria e vontade, espalhados na pele, no rosto, na voz, chorando, berrando, inocente e egoísta, perfeitamente consciente do que quer para si.

Odeia-se profundamente naquele momento, em que conta o respirar da filha aninhada no seu peito de mãe, e sabe que a sua zanga, todas as suas zangas, são fruto da sua necessidade de garantir que passa a herança à menina dos seus próprios filtros de mulher crescida.

Odeia-se mais profundamente ainda, quando se tenta lembrar da última vez que foi voz e coração, na pele, vontade e olhar, e não encontra uma imagem se quer que a conforte, ali no poço fundo das memórias de si,

de menina, mãe e mulher.

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Para, amor

por Ana sem saltos, em 01.04.17

Quanto cabe no teu Coração amor?

De tempos a tempos faço isto. Paro, e escuto. Escuto-me.

Quantas vezes te ouves amor?

Os dias atropelam-se, é inevitável, quanto mais tempo passa, mais veloz e implacável é a sua passagem. E se não parar, assim de tempos a tempos, esqueço-me das coisas mais simples. Esqueço-me de ver, em vez de olhar. Esqueço-me de agradecer, em vez de me queixar. Esqueço-me que, no final do caminho, valem os segundos que podemos ter deixado passar. Valem os obrigadas que podemos ter deixado de dizer, ou pior, de sentir. Por isso paro. E olho. E escuto. Se for preciso, choro também. Cabe em mim, afinal de contas, muito mais do que julgava. Dentro do bom, o ótimo. Dentro do mau, o péssimo. Dentro do que é mortal, aquilo que sei e sinto que é infinito, ainda que morra amanhã. Por isso paro. Tenho de parar de tempos a tempos. Tenho de agradecer, tenho de me perdoar. Sou dona de nada em mim, e por isso é urgente, tão urgente, saber parar, rir, chorar, amar e perdoar. Dona de nada, agradecida por tudo.

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