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Léxico

por Ana sem saltos, em 31.01.17

Frente a frente, no banco do jardim. Há palavras que não se dizem, mesmo depois de ditas. Passa o significado do léxico, fica a dúvida no ar. A dúvida do que os unia naquele momento, naquele banco de jardim de um parque abandonado, numa noite sem lua, sem testemunhas, sem significado algum, sem razão de qualquer espécie.

Ouve-se a voz do coração, palpável ali, mesmo sem as tais palavras que não se dizem. Mesmo depois de ditas. E a expectativa, a tal, espreitando sorrateira por cima do ombro. Sem sorrisos, nem espelhos, sem luz, nem companhia.

Os minutos travam a fundo, parando um tempo bêbado de urgência.

- então e agora?

Quando tudo parece perfeito, respirar torna-se a mais difícil tarefa.

- então agora... - sorri e olha-o de frente, nos olhos.

Unem-se, primeiro as mãos, agarram-se, enlaçam-se, procuram-se. Encontram-se, por fim, no beijo que cala todas as palavras, ditas ou por dizer.

E o léxico, esse cabrão, paira no ar, regando, em vão, uma dúvida que na verdade nunca existiu.

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Reencontros

por Ana sem saltos, em 26.01.17

Fiambre, iogurtes, queijo. A mãezinha pediu ovos ou farinha?
Seguia pelos corredores, fazendo contas de cabeça, mãos nos bolsos amachucando a lista  que sabia de cor, olhos no chão, colarinho da camisa abotoado até ao fim. Vira no corredor dos detergentes, assusta-se com o embate de frente.
- Desculpe...
Sem tirar os olhos do chão prepara-se para seguir caminho.
- Já não falas ao teu irmão?
Irmão? Não tenho irmão.
Para e olha para trás.
Controla-te. O Felipe morreu, lembra-te. Mostra que estás ótimo. Quem é aquele miúdo? Respira anormal estás roxo, tu estás vivo, ele está morto.
- João fala àquele senhor, é teu tio.
Tio? Eu não sou tio! O miúdo, eu conheço aqueles olhos, eu conheço aqueles olhos. Respira seu mente capto, sorri, endireita-te, mostra que estás bem.
- Olá. Tenho de ir.
- A sério que não vais dizer mais nada?
Porque não fiz a barba? Claro, estás impecável tu, estás a olhar para onde, tens pena? Não preciso da tua pena.
- Tenho pressa.
- Tens pressa... Tudo bem.
Virou-se para seguir caminho, coração entalado na garganta, lamentando o desprezo por si mesmo tão visível na roupa, na barba por fazer, na lista de compras da mãezinha que trazia na mão. Sobe-lhe o sangue, entalado no estômago há tantos anos, enche-se de uma coragem tão pouco sua, volta-se de novo, ainda sem respirar:
- Felipe?
Voltam-se os dois e olham-se de frente no corredor dos detergentes, um numa ponta, com um miúdo pela mão, outro na outra, com a humilhação esparramada nas mãos agarradas uma na outra, suadas, tremidas, brancas.
- Ainda andas a comer a minha mulher?
- Vai-te foder.
Vira-se, endireita o colarinho e expira finalmente, nervoso, surpreso, sorrindo sem alma.
20 anos passados e continuas o mesmo ordinário de sempre.

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Saudade

por Ana sem saltos, em 25.01.17

Naquela manhã, morna e suave, despertou antes ainda dos pardais. Levantou-se surpresa com a sensação que há tantos anos não vivia. A memória a trazer-lhe de volta o estômago embrulhado, o ar de três mundos sem ser suficiente para acalmar uma ansiedade doce e quente.

Levantou-se, saiu e sentou-se no jardim, vendo o dia nascer, tão devagar como a vida de antes lhe passou. Agora era tudo rápido, mas, houve um dia, em que os segundos se uniram, multiplicando os minutos em várias parcelas infinitas. Cada uma com uma história começada, mas sem tempo de lhe conhecer o fim.

Tantos anos passados, e agora, ali sentada, naquela manhã morna e suave, sentia novamente o infinito de outrora.

Deixou cair a lágrima que sempre lhe foi fácil, e expirou finalmente. Sai o ar e a dor, leve e pequenina, desata-se o nó no estômago, solta a memória do ontem atropelado no hoje. A memória incompleta, atada ao presente, tão bom e feliz, perdida no sonho de um tempo que sem viver, viveu para sempre.

- Bom dia meu amor.

Olha para trás, e sorri.

- Queres que te traga o café?

- Traz sim por favor. Já vou ao pão.

 

A lembrança do que não viveu, eternizada na lágrima, no sorriso, e em cada ruga que o desdobrar dos hojes lhe deu.

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Ver de olhos fechados

por Ana sem saltos, em 19.01.17

- Avó?...

- Diz meu bem.

- Porque tens sempre os olhos fechados?

- Os olhos fechados? Bom, não tenho sempre, mas os olhos da avó estão cansados, sabes? Por isso fecho-os de vez em quando. Para os descansar.

- Para não os gastares, não é avó?

- Sim, querido. Isso mesmo, para não os gastar.

- Vou fechar os meus também. Quero ver sempre tudo muito bem.

- Faz isso, sim, meu amor. Agora deixa a avó descansar...

- Avó...

- Diz querido.

- Sabes que também consigo ver de olhos fechados?

- Consegues? Que sorte. Dantes a avó também conseguia...

- Eu sei.

- Sabes?

- Sei sim avó.

- Está certo...

- Avó?

- Hum...

- Quando vais morrer?

- Oh querido que disparate, isso não se pergunta!

- Porquê?

-... Porque não. Só o menino Jesus sabe essas coisas e ele não gosta que falemos delas.

- Está bem. Então vou fechar os olhos e pedir-lhe que morras.

- Oh filho! Então não gostas da avó?

- Claro que gosto!

- Então porque queres pedir isso ao menino Jesus?

- Oh avó, porque eu consigo ver o avô quando fecho os olhos... E tu tens os olhos cansados.

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Do verbo agradecer

por Ana sem saltos, em 16.01.17

Perdi a oportunidade, ontem, quando andávamos na rua, de te dizer obrigado. Estávamos

estavas,

 

distraídos, é verdade, a vida consome-nos nos segundos que se devoram, tínhamos os minutos contados,

temos segundos a menos,


tínhamos pressa, e, para mais, estava quase a chover. Por isso, íamos em passo rápido, lado a lado, olhar em frente, ao fundo,

no destino que nos atropelou,

 

e tu falavas depressa. Falavas muito.
E eu, absorto nos passos,

um, dois, três,

 

controlando a vontade, o impulso, vendo o fundo, só, sem o todo, contando apenas,

um, dois, três.
Quatro, cinco, seis.


E depois foi rápido. É, sempre, rápido.
Olhaste para mim, sorriste, disseste-me adeus e entraste no táxi.

E eu fiquei ali, sem mais passos para contar, sem mais ar para respirar, vendo-te partir.

Fiquei ali, preso nos números, perdido na urgência, deixando escapar, uma vez mais, a oportunidade de te dizer obrigado.

 

Ainda que não sejas minha,
Obrigado por existires meu amor.

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