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A Sara que não é Sara (II)

por Ana sem saltos, em 16.12.16

Em apenas 2 dias Sara pintou 5 quadros.  48 horas interruptas, entre os cuidados com Chico, e as tintas que falavam, atropelavam-se em cores fortes, pinceladas decididas que delimitavam lágrimas, corpos, paisagens, fogo, e lá ao fundo um pinheiro engolido por uma onda.

Uma vez começado não conseguia parar, sentindo uma urgência naquele processo,

 

como em tudo na vida

 

depositando na tinta a vontade de ver Chico novamente para lhe contar como morre um passado, como se vomita a alma, como se lava um coração com lágrimas que não são doces.

As memórias vinham em catapulta, sem a raiva de sempre como som de fundo,

 

Perdoa-me

 

E agora não conseguia parar.

Chico dormia febril no quarto dos fundos, quase lhe ouvia a voz, o soluço escondido, a saudade que berrava no pincel.

Fotografias de um subconsciente, coloridas e agressivas, doces e quentes, 5 quadros com tudo e nada, ávidos de alguém que os lesse, que os ouvisse.

 

Quando terminou o quinto quadro, sentou-se no chão, cansada, ofegante, suja de tinta, esfaimada de falar, de amar, de pedir perdão. Dois dias interruptos, horas que se desenrolaram frenéticas, urgentes e pesadas.

E Chico dormindo no quarto dos fundos. Chico, o surdo mudo tonto. Homem raposa, homem de gritos de alma, homem de mãos quentes.

Quando se levantou limpando as mãos ao avental, assustou-se quando viu um vulto atrás de si, de pé, imóvel, escondido na sombra da ombreira da porta.

- Chico?...

 

Alma de lágrimas, fome de dor,

 

-  Chico … Chico …

 

Sou eu Chico, se tu soubesses, sou eu Chico, a Sara emergente, Chico tu que me vês, o que lês no meu coração?

 

- Oh Chico …

 

Não se movia, chorando de alivio, de cansaço, de descoberta de si mesma. Profundamente exausto, um corpo finalmente acordado depois de tanto, tanto tempo.

 

Chico … oh Chico … onde estiveste tu quando tropecei em mim na tinta?

 

Não a ouvia, mas via-a naquele corpo cansado, naqueles 5 quadros ao fundo da sala, olhava atento e surpreso, brilho no olhar, as mãos grandes abertas, prontas para receber. Passou por Sara e parou em frente aos quadros, de pé, olhando, ouvindo os murmúrios de quem se arrepende, ouvindo-lhe a alma em 5 quadros berrando de tinta.

E Sara imóvel, chorando sem voz,

Chico … oh Chico …

 

Chico ergue as mão, e toca nas telas. Aproxima a cara e cheira-as. Abraça aquela história de cor, geme baixinho uma canção desafinada, ouve-lhe a angustia e a esperança no preto verde e laranja. Chico o surdo mudo tonto bebe-lhe a verdade e chora por fim em lágrimas salgadas comovidas.

E Sara atrás de si expectante,

 

que vês tu homem raposa, não gostas, faço-te chorar? Sou eu Chico, oh Chico … não a Sara que salva, mas Sara cobarde que se esconde. Sou eu Chico, de fogo, de cinzas, de nada,  vês-me agora? Magoo quem amo, fujo de quem me recebe… não me deixes agora… não me deixes agora…

 

Chico volta-se e encara-a de frente.

Nos olhos molhados uma nova fome, nos olhos brilhantes uma urgência de mais,

 

vejo-te sim…

 

aproxima-se devagar, também ele cansado daqueles gritos de cor, em segundos que se estendem por momentos infinitos, e Sara esperando nervosa, tremendo,

 

Chico … oh Chico … sou eu Chico...

 

Toca-lhe na cara, aproximam-se as bocas, respirando alto, falando sem voz, engolem-se por fim num beijo quente e longo, falta-lhes o ar, bebem-se mutuamente, não param o beijo que abre portas aos corpos que falam,

 

Chico … oh Chico …

 

 

amam-se ali, na urgência de se conhecerem, tocam-se dois corpos que encaixam como se desde sempre se procurassem, gemem duas almas sós na união.

 

Duas almas numa só, no grito por fim, de quem se ouve sem ter ouvidos.

 

(Segunda parte deste conto aqui)

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Porta, vida, vinho e amor

por Ana sem saltos, em 13.12.16

Despejou o resto da garrafa de vinho  pelo gargalo.  Largou a garrafa que tombou na mesa, e caiu no chão, desfazendo-se em mil pedaços. Olhou rindo para o chão. Turvos os cristais pareciam o seu coração - mil pedaços, esmagados, pisados, partidos encharcados em vinho,

cheios do vazio que outrora foi promessa.

 

Ele, o inerte. Ele, o deixa andar, não decide, não impõe, a vida vai sozinha. Ele o amante do indiferente, casado com o mais ou menos. Ele o nem feliz nem infeliz,

 

E eis-me aqui rindo

Esboça um esgar de escárnio, regado de vinho, embriagado na miragem da posse do que não se tem

Amando sem amar,

amando só no verbo querer.

 

Vai à janela, senta-se na cadeira e espreita pelos binóculos a vida do lado de lá. Ela ali, real ou não, ela ali, numa vida que não o inclui, ela a vida,

 

a fantasia?

 

ela em carne, falando ao telefone, mexendo na panela, ela ali numa vida que não só não o inclui, como não o sabe se quer.

 

Acende um cigarro e atira os binóculos pela janela. Deixa entrar o frio húmido de dezembro. Inspira bem fundo aquele ar novo.

 

E ela ali, saltando de segundo em segundo numa vida que o exclui,

e ele aqui, sem segundos para contar, numa vida embriagada, irreal, na espera eterna pelo que nunca vem, nunca muda.

 

Levanta-se, sente uma tontura, apoia a mão na parede, respira fundo e espera que lhe passe o enjoo que lhe sobe na garganta.

Endireita-se, conta até dez devagar

Um, dois, três...

 

Devagar a calma a volta a si. Lamenta ter atirado os binóculos pela janela, aproxima-se novamente, encosta o nariz no vidro, cerra os olhos, mas já não vê mais do que um amontoado de luzes, um amontoado de lares com vida sem imagem, sem personificações, sem alma

Que alma?

 

Lamenta a bebedeira. Lamenta o assim assim. Lamenta a vida sem esforço nem empenho, sem rumo, sem valor.

E chora sem voz, aspirando a vida do outro lado na janela, saltando de segundo em segundo, cumprindo cada ruga obesa de tempo vivido, tempo passado sem acasos, sem ocasiões.

 

Sai porta fora, decidido pela primeira vez, impulsionado pela euforia triste de duas garrafas de vinho. Olha em frente, e caminha rápido na rua vazia, nua, fria, vira a esquina, tropeça numa pedra, cai mas levanta-se, agarrado à angustia, agarrado à decisão, agarrado ao amor do que não tem

do que terá

 

Numero 65, 3º esq

 

Toco?

Seria esquerdo ou direito?

 

Toca.

 A porta abre e ele sobe sem pensar, sobe a tropeçar,

Mão na cintura e o beijo que não deu, na promessa do que não foi,

 levo-a pela mão e conto-lhe sobre o sol e a chuva, falo-lhe de amor.

 

Para ofegante no 3º andar

Esquerdo ou direito?

 

A porta abre e do lado de lá pergunta-lhe uma voz masculina

- Posso ajudar?

 

O beijo que não deu na promessa que não cumpriu

- Desculpe enganei-me.

Na porta, na vida, no vinho e no amor.

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