Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Dois velhos, um livro*

por Ana sem saltos, em 20.10.16

Lá fora chove. O vento embala o pinheiro do jardim que, contra todas as expectativas, ainda se ergue, velho e cansado.

Na lareira crepita um fogo mole e morno, calmo como a música que toca baixinho no antigo gira discos. Está escuro, a luz é apenas a das brasas na lareira, os telefones estão desligados até porque, sabem os miúdos, neste dia não vale de nada ligarem porque não lhes atendem. Este dia é deles.

Rugas que contam caminhada maravilhosa, mãos antigas que se enlaçam como há 50 anos atrás. Não precisam de palavras, há um livro inteiro escrito a dois, numa cumplicidade que nunca esmoreceu, pelo contrário, ganhou corpo e força com o tempo, os problemas, as desilusões, as infinitas alegrias de uma vida inteira juntos. E a música continua, baixinha e suave, e o vento dança no pinheiro que ainda se ergue velho e cansado.

- Tens fome?

- Não, tu tens?

- Não….

Não falam mas pensam juntos, relembram o primeiro beijo, o passeio à beira mar, o casamento, lindo e feliz, o nascimento do primeiro filho, cheio de sobressaltos mas tão intenso, depois do segundo e do terceiro. Lembram as dores também, mas estão longe e cicatrizadas, raízes de um amor que fortalece com o perdão, de seguida os netos, a correria da vida a passar, as conversas regadas com vinho branco. Falam sem nada dizer, dois velhos juntos uma vida inteira, de mãos dadas 50 anos depois. Dois velhos cujo amor crepita como o fogo na lareira aberta.

- Casas comigo?

Ela ri-se, beija-lhe o pescoço apertando-lhe a mão, e, de olhos fechados ao som do vento que uiva lá fora, responde-lhe:

- Caso pois…

 

(*texto antigo recuperado e adaptado)

Autoria e outros dados (tags, etc)


Fala-me de amor

por Ana sem saltos, em 19.10.16

Sentada no seu esconderijo de criança que, rodeado de pedras e árvores, continuava a oferecer-lhe a segurança que lhe dava quando, em menina, se escondia do mundo a escrever sobre o amor num bloco de notas.
Sorriu à lembrança desta imagem. A inocência da lembrança desta imagem.
Crescer tirou-lhe a magia das coisas simples. Tirou-lhe a fé, mais do que num deus atrás das nuvens, na humanidade, na alegria genuína, e mesmo na tristeza. Crescer derrubou-lhe a esperança.

O que nos faz desacreditar?... É assim tão má a história que vamos escrevendo na nossa vida?


Ao fundo, no horizonte, põe-se o sol em tons de laranja neste fim de tarde de outono. Em criança esta era a hora em que desistia de fugir de casa, e voltava com os bolsos cheios de azedas e orgulho ferido para o banho antes do jantar.
Crescer tirou-lhe também o medo do escuro. O medo do que se esconde quando a visão dá lugar à imaginação na ausência de luz que apura o coração.
Sentada no chão crava os dedos na terra húmida. Inconsciente ou não, escreve repetidamente a.m.o.r.  

 

É só um “A”, um “M”, um “O”, um “R”

 

Cravado no barro, na pedra, na unha que sangra à força que lhe tolda a mente,


Amor, além das letras que o compõem

 

Tanta esperança depositada nesse conto de fadas de menina... No príncipe a cavalo, na valsa à chuva, nas mãos entrelaçadas à lareira. Seria provavelmente culpa desta sua mania de cravar todos os anseios de uma expectativa esgotante e inalcançável.. Nesta sensação mortífera do quase lá que nunca chega, que a levou toda uma vida a saltitar de desilusão em desilusão.

De si mesma e desta sede que não morre com água.


Lá em baixo, algures numa daquelas casinhas brancas, estaria arrumada a sua história, num lar quente e luminoso. Lá em baixo a história que escreveu, direitinha e bonita, toda uma vida arrumada e colorida. Toda uma vida quase lá, sempre no quase. E ela ali, escondida no refugio de menina, no castelo que construiu com canas, musgo, e o desejo de mais. Sempre mais.
Afugentou a comichão de pânico que esta sensação de fuga que causou. Levantou-se, limpou os dedos ensanguentados e sujos de terra nas calças, e com o pé esmagou as letras


A

.
M

.
O

.
R

.

Virando-se para seguir caminho,


Para casa?
Para onde?...


Recebe a mão. A mão de ontem. A mão de sempre.

Expectativa sempre quebrada pelo sonho irreal.
Em menina sonhou com um príncipe a cavalo.
A vida deu-lhe um homem e um amor que por não ser a cavalo talvez nunca tenha valorizado. Lembrou-se das palavras da avó, tantos anos antes, “escolhe um homem bonito e que não te bata e serás feliz”

 

Feliz...

O sol deu a vez a uma lua gorda e vaidosa, vertendo uma luz leitosa por cima do mundo lá em baixo. Á sua frente o companheiro de toda uma vida. Olhando-a nos olhos, cúmplice numa história de anos, novo na paixão que sempre reacendia.

E ela sempre sonhando com o cavalo...

- Desculpa
Disse baixinho.

Mas calou-lhe o perdão um beijo sôfrego, esfomeado, sedento daquele minúsculo pedaço para o quase lá.

Fecha os olhos... Entrega-te. Fecha os olhos e vai.

E então ela fechou os olhos. Esqueceu o cavalo e olhou o homem ali à luz da lua, recebendo-a provavelmente pela primeira vez, numa fome de amor tão maior do que a carne.
E de olhos fechados foi, e amou... E de olhos fechados deixou parar o tempo, na luz branca da lua, no homem que sempre a amou, no bom que a vida lhe deu. No a.m.o.r. que esmagou no chão. Fechou os olhos e foi avançando em passinhos pequeninos para derrubar o quase,

O quase

Abre os olhos, escorrega-lhe o momento por entre os dedos, e era só ela e ele, chorando por mais de si, tentando uma vez mais o todo. E ela de olhos abertos, olhando o vazio de um céu estrelado, amarrada no quase, longe dali, afogada no pensamento sombrio que lhe invade a mente e coração

 

Amanhã tenho de procurar um esconderijo novo...

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D