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Sara que não é Sara

por Ana sem saltos, em 14.09.16

Voltou a tentar pintar, depois de ver que a sua tristeza podia ser transformada com apenas uns traços mais decididos. Concentrou-se na beleza daquele sitio, no conforto de ser anónima, na felicidade simples daquela gente da terra. Ao fundo, na janela, o branco imaculado da neve no topo da serra.

Agarrou num pincel. Olhou o papel em branco. Era a sua vida em branco dali para a frente, cabia a si saber como a pintar. Olhou para as cores dispostas à sua frente, não sabia o que escolher, sabia que devia tentar usar o magenta, azul, amarelo, mas tombava-lhe a mão para o preto, castanho, cinzento. A pressão da responsabilidade numa folha vazia, a possibilidade de escolher entre a cor e o cinzento,

 

e afinal, o que vais escolher para ti?

 

Larga o pincel, enfia-se num casaco grosso, e sai para o alpendre. Estava um dia de inverno limpo, frio e brilhante. Acende um cigarro e senta-se na cadeira de baloiço. De onde vem aquele vazio? Não tinha nada, apenas uma folha em branco e uma enorme vontade de a manchar de preto.

Chora uma vez mais a alma em cascata, constantemente fugindo-lhe dos olhos. Mas ali ninguém a via, ninguém a conhecia, era só ela num nome que era novo. E será que isso era bom?

Limpa as lágrimas com medo de perder o controlo, e uma vontade enorme de o perder ao mesmo tempo. Entra em casa, e traz as folhas em branco e as tintas para o alpendre. Dilui a aguarela com as suas próprias lágrimas …

Agarra o pincel com força, com toda a mão em vez de somente com os dedos e ajoelha-se no chão. Mistura o preto no branco, dilui o cinzento com o sal da sua alma, carrega com força o branco da folha, num traço forte mas trémulo e pinta compulsivamente, como quem precisa de comer. Tinge uma mancha cinzenta com mais uns traços escuros, molha o pincel, com água apenas, dilui longas curvas, molha-o de novo desta vez no castanho, dá forma às formas, zangadas e trémulas, surgindo naquela confusão triste um olhar perdido numa cara redonda.

 

Para-lhe a mão uma outra mão.

Tomba para trás no susto, e então vê-o, chico, o surdo mudo tonto da aldeia, olhando-a apenas a uma distância de milímetros, agarrando-lhe com força os dedos sujos.  Finta-lhe a alma esparramada no corpo, nas mãos, nos olhos, na tinta e então ela grita-lhe,

 

o que queres de mim surdo mudo dum raio?

 

Chico permanece imóvel, sem lhe largar a mão. Nos olhos a vida, nas mãos o fogo, o surdo mudo testando-lhe a tristeza arrastando-a para o seu mundo.

 

Não te oiço sabes?

 

Avalanche de lágrimas pretas e sujas,

 

Quem sou eu afinal, para que sirvo, o que faço aqui?

Aqui ouves mundo, menina crescida e mimada, sabes realmente o que é não querer estar aqui?

 

Chico levanta-se e puxa-a. O seu corpo responde e segue-o,

perdida a alma no grito.

 

E o surdo puxando-a, cada vez com mais força, fazendo-a correr, tropeçar, puxada por aquela mão quente. Correm os dois de mão dada, a que não quer ouvir e o que não ouve, atravessam campos, matos, saltam por cima de rochedos, correm unidos e zangados.

Ela grita-lhe insultos mas Chico não a ouve e continua arrastando a menina que já não é menina.

Para de repente.

Ela soluça esfomeada e ofegante. Tem a cara encharcada de lágrimas, o corpo dorido e arranhado. Chico finta algo à sua frente, respirando calmo como se não tivesse acabado de fazer a mesma maratona que lhe tirou o ar.

Espera que lhe sequem as lágrimas, que lhe volte a calma. O dia gelado e limpo entra-lhe alma a dentro. Acalma-se devagar. Volta-lhe lentamente a racionalidade,

o que faço aqui afinal com este surdo mudo maluco? E se realmente lhe faltam todos os parafusos, e se me magoa?

 

Chico volta-se e encara-a de frente. Um surdo mudo, tonto, com a beleza do desconhecido no corpo. Pele escura do sol, cabeleira negra e farta, e naqueles olhos o brilho louco e astuto de uma raposa.

 

És tão tonto como eu sou Sara.

Conversam em silêncio num dialogo sem voz,

tu vês-me surdo mudo, tu vês-me…

Tu ouves-me menina mimada, tu ouves-me...

 

Chico puxa-lhe pela mão novamente, passam três carvalhos densos e velhos, e abre-se uma vista cortante sobre um precipício. Lá em baixo ouve-se a violência da água que cai de uma grotesca cascata, abafando todo e qualquer outro som.

E Chico encaminha-a devagar até ao precipício. Deixa-se levar, primeiro curiosa, depois a medo.

Chico não a olha, guia-a pela mão,

 

para onde me levas?

 

O coração em catapulta na garganta, o som abafante da água furiosa lá em baixo.

A um metro do penhasco larga-a, continuando sozinho em passos de passarinho, silenciosos e pequeninos.

 

Para, o que estas a fazer? És maluco, vou-me embora!

 

Mas Chico é surdo, não a ouve, sente tudo, não a ouve, não tem medo, não tem compromisso nem consigo nem com ninguém. Para com as pontas dos pés já sem chão. Fecha os olhos, abre os braços, balançando o corpo à força do abismo, na vida por um fio, no grito da água, gritando agora ele, de dentro, da alma, do estômago, do fundo de si, um grito que solta inconsequente. Afinal não o ouve, não lhe conhece os efeitos.

Paralisada, imóvel de medo alheio, sem pensar, ouve a musica que Chico lhe canta com a água. Caminha-lhe então o corpo na direção do grito, numa atração irresistível ao abismo.

E Chico balançando ali no cume da vida.

A queda lá em baixo causa-lhe tonturas, fecha os olhos, dá a mão a Chico, e grita ela também.

Podia dar um passo. Um passinho apenas e acabar com aquela miséria de alma, aquela tristeza egoísta, aquela ingratidão profunda. Um passinho apenas, e fundia-se com o mundo, Sara que nunca se fundira com nada, nem com ninguém. Uma entrega na vida, pelo menos uma,

 

é só um passo, o que custa, vá atira-te, o que fazes tu aqui?

 

O grito de Sara continuo, ninguém a ouve, chico só a vê, e o que verá ele agora, uma mulher berrando sem som, suja, ferida, despenteada, molhada de lágrimas até a alma,

 

quero lá saber o que tu vês surdo dum raio, porque me trouxeste aqui?

 

Funde-se a angústia com a raiva, transpira algo que desconhece,

 

é só um passo, o que custa afinal?

 

A água cantando violenta.

Chico larga-lhe a mão,

agora a decisão é tua… ficas ou vais?

 

Sara abre os olhos,

desequilibra-se com a vertigem da morte puxando-a de baixo,e procura com a mão algo para se agarrar.

Chico puxa-a para trás num gesto rápido e firme, e caiem os dois no chão.

Olham-se unidos na loucura, unidos na duvida, e Chico ri-se com a boca muito aberta dizendo-lhe sem palavras,

 

era só isso que eu queria saber…

 

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Lá fora chove. É cedo mas é escuro. Dentro de ti aquela névoa peganhenta e grossa que te tapa a alma de tempos a tempos.

Porque não choras?....

 

Levantas-te e olhas a janela. Há algo de trágico na água que escorre na janela. Por oposto ao seco dos teus olhos.

E de mim?...

Se nascesse de novo...

 

O rumo das coisas foi aquele que era suposto, negociado sabe-se lá com quem, atrás das estrelas, antes ainda de seres. Nasceste perfeito. Cresceste normalmente, numa família grande e meiga. Aos fins de semana apanhavas bichos da conta e escondias tesouros em cabanas de trapos no monte. Alimentavas-te de azedas e mergulhavas no rio ainda em março.

Lembras-te do gelo que te invade os ossos naquele segundo em que a tua carne mergulha na água virgem dos primeiros dias de primavera.

 

Não mudava isso.

Se nascesse outra vez não mudava isso.

 

E lá fora a chuva é varrida pelo vento. Leva as últimas folhas da árvore do jardim. Há algo de trágico no silêncio ensurdecedor de uma noite de chuva. E lá dentro, seca de lágrimas a tua alma. Seca de alma a tua vida.

 

Sabes que tiveste sorte. A vida foi generosa contigo. Não existe nada de trágico a apontar, nunca foste o melhor, mas também nunca foste o pior. Cresceste ao ritmo lento de uma infância feliz. Sem nenhum sobressalto passaste de menino a homem. Casaste num dia solarengo de inverno. Lembras-te das promessas que te fizeste naquela interminável caminhada dela até ao altar. A esperança apaixonada que sentias.

 

Não mudava isso

Se nascesse de novo não mudava isso.

 

De repente, sem estares à espera, dos confins de ti mesmo, atrás das memórias, antes ainda do coração, vem em onda um soluço que te atira ao chão. A chuva para, dando-te a vez naquela dança triste. É salgado teu sabor. E choras com fome de ti, e choras uma vida, lágrimas e voz num soluço atafulhado de tanto tempo travado. Preso no dia a dia, no suposto cumprido sem sobressalto. Preso nas correntes da rotina, do correto, do bonito que se vê no papel brilhante da fotografia da sala.

 

Se nascesses de novo o que mudavas?

Se nascesse de novo, não nascia... Dava a vez a outro que soubesse ser feliz.

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