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Doce prisão

por Ana sem saltos, em 23.11.17

Um dia vais perceber. Sei disso. Podem passar milénios sobre milénios, tanto faz, o tempo nada consegue contra isto que te tenho. Agora não entendes, não interessa também, valores e amores maiores se elevam. E tu, meu amor, és minha, e isso já estava escrito antes de ti, antes de mim, antes de nós.

São 5 da manhã, talvez. A casa dorme naquele silêncio triste de insónia de madrugada. Esperou pacientemente a passagem de todos os segundos até àquela hora. Sabia-o no mais profundo dos sonos, sossegado por breves instantes.

 

Não é amor isso...

Não sabes do que falas. Só te quero proteger minha flor.

 

Levanta-se devagar, leve como algodão, retira a mochila de baixo da cama. Engole o pânico, inspira bem fundo, até lhe doer o peito. Sai do quarto em pontas dos pés. Retira do bolso a chave da enorme masmorra em tons de azul bebé que lhe aprisiona o filho, que a aprisiona a ela. Abre devagar a porta, ouve a respiração calma de quem dorme na crença inocente da imortalidade das coisas. Agarra o filho no colo, encosta-o bem junto a si para que o despertar volte a dar lugar ao sono.

 

Amo-te tanto.

Também te amo.

Juras? Tens de jurar.

Juro.

 

 

Não pode chorar, não sabe mais como chorar, confusa naquela doce prisão, perdidamente apaixonada por aquela enorme paixão.

 

É melhor ser eu a falar com ele. Fica no quarto por favor.

Porquê? Que disparate, é o senhor do correio. Vamos os dois.

Não.

 

Estás zangada? Não te zangues comigo. Amo-te tanto, só te quero proteger.

Não estou zangada...

 

[Não estou zangada. Estou apavorada.]

 

Caminha em pontas, atravessa o corredor dos quartos. Consegue transpor na pele a antítese ao furacão que sente por dentro, oferecendo o seu ombro como almofada segura ao filho.

Sente uma breve satisfação pela segurança que, apesar de tudo, ainda lhe consegue oferecer.

Relembra os primeiro tempos de amor veloz, audaz e feroz, capaz de mundos, capaz de fundos, sobrepondo-se a qualquer outra realidade.

 

Amo a forma como me amas.

Não mereces menos que o mundo princesa. O mundo é que não te merece a ti.

 

Tenta abrir a porta de casa, mas surpreende-se com a porta trancada. Engole o vómito que lhe sobe a garganta, tenta respirar devagar, procurando desesperada uma solução.

 

- Onde vais a esta hora princesa?

 

Ela ajoelha-se no chão, com o filho dormindo no colo.

Ele aproxima-se dela, retira-lhe com cuidado a mochila das costas. Acaricia-lhe o cabelo, sorrindo.

Ela chora sem lágrimas, sem voz, sem soluços. Chora em silêncio, firme no seu papel de ninho seguro do filho.

 

- Anda vá. Estás ver porque tenho de tomar conta de ti? Deita-te e descansa, vou-te preparar um chá.

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Vida nova

por Ana sem saltos, em 21.11.17

Um mundo inteiro que para, só para te ver passar.
Há, meu amor, em ti, uma força igual à que impulsiona a terra a girar, o mar a encher e vazar, as estrelas e astros fazerem do céu um inteiro infinito, lindo, imparável, imprevisível. Como tu, metade boa da minha existência, quando me mostras que há muito mais além do que é visível.

 

O que é assim, assim deve ficar.

 

As raízes que me fixam à vida, à nossa vida, não são correntes que me impedem de voar. Sou um passarinho, meu amor. Um passarinho que escolheu ficar.

 

Do ventre fundo e profundo, emana uma dor carnal, bruta e fria. O corpo torce e, não parecendo, sabe o que faz. Mas a mente tem rédeas e há medo e susto e lágrimas e voz. Agarra, rasga, morde os lençóis. Ele olha-a em silêncio.

 

És um arco íris, sabias?
E eu sou nuvem que não sabe pingar.

 

E então o grito dela, o sorriso dele, e o choro pequenino e bonito que flui do seu ventre de finalmente mãe. Milagre antigo e valente que é o amor fazer vida.

Olham-no nos braços dela, pequeno e feroz, indefeso e infinito, o novo ser que encarna os seus corações, batendo, ali, descompassados, brutos, assustadoramente fora do peito.


E choram juntos, porque chorar é dor e amor.
Ele beija-a na testa. Ela fecha os olhos.

 

- É para sempre?
- És sim, meu bem. És para sempre.

 

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Reflexos

por Ana sem saltos, em 14.11.17

Ama-me sem pressa. Ama-me com vagar.
Vale pouco a vida, feitas as contas, afinal. A corrida que nos move, que nos ultrapassa tantas vezes, retira toda a magia das coisas. E as coisas que têm magia não são as grandes. São as pequenas que só vê quem não corre a fugir do ontem. Quem não corre no desespero do amanhã. É por isso que te peço, neste que é o meu último desejo. Ama-me sem pressa, meu bem. Ama-me com vagar.

 

Dobra o papel. Coloca-o com cuidado no envelope. Lambe-o selando-o. Guarda-o dobrado no bolso do casaco e olha-se no espelho antes de sair. Assusta-se com o que o reflexo lhe devolve. Aproxima-se devagar, finta-se no olhar, aquele do outro lado, aquele que deveria ser o dela. E fecha os olhos entregue ao cansaço, entregue à desilusão da cara bonita e de olhos vazios que não reconhece mais do lado de lá. Abre a porta de casa e sai.

O dia lá fora está em vias de terminar. Está um frio gélido e limpo, respirar faz doer o coração. Conta os passos que a levam,

Um, dois, três, quatro,

E aperta a carta no bolso do casaco.

Ama-me.

Vira a esquina, entra no parque. Segue os trilhos de terra, como se soubesse exatamente onde tem de ir. Como se soubesse exatamente de onde vem. Mas caminha sem destino com uma carta de amor, sem destinatário nem remetente,
no bolso.

O céu fecha-se em noite escura. As estrelas despontam, uma a uma no céu. O ar arrefece ainda mais.

Para. Olha á volta e vê-se, mulher sozinha, no parque, na noite. Aproxima-se do lago, e vê despontar a lua, gorda, grande e vaidosa. Olha a água parada e vê-se em vulto.

Mulher ingrata, sozinha, na noite, no lago, no parque.

Retira a carta do bolso, senta-se na erva húmida à beira do espelho de água.

- que fazes aqui?

Não olha a voz. Baixa o olhar amachucando com força o papel. Tem frio e treme. Tem frio e chora a alma, em derrame morno caindo dos olhos

- e tu, que fazes aqui?

Pergunta, estudando a voz. Pergunta, entregando uma raiva que não sente ao timbre que cospe boca fora.

- provavelmente o mesmo que tu.

Surpreende-se com o tom suave e levanta a cara para o olhar de frente. Homem bonito, sozinho, na noite, no parque.

- queres mesmo dizer adeus?

- estou cansada.. estou tão cansada.

- que se foda o cansaço. Olha para mim. É isto que queres?

Ela levanta-se novamente fria, novamente vazia, sacode as calças com a mão.
Olha-o de frente nos olhos.

- sabes o que quero?

Ele espera a resposta retribuindo-lhe, sem medo, o olhar.
Ela entrega-lhe a carta, amachucada, selada, dobrada.

- quero que tu te fodas.

E altiva, bonita e vazia, vira costas e segue o trilho que a trouxe de lado nenhum.

Caminhando segura para destino algum.

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Perdoa-me Senhor

por Ana sem saltos, em 05.11.17

Um dia que passou vago.
Mais do que vago.
Um dia passado paralelo à pausa solene que lhe mora.

Os segundos alinharam-se, como deve de ser. Como, aliás, sempre é. O sol nasceu, o dia andou, as coisas aconteceram, alinhadas na ordem caótica do destino. Mas para ela, feiticeira das lágrimas estagnadas e minutos ocos de tempo, a rotação da terra parou.
Estacionou o carro. Deixou-se ficar, uns segundos apenas. Procurou qualquer coisa dentro de si, mas tudo está suspenso no vazio, pairando em seu redor sem a rédea da gravidade. Uma memória flutua-lhe em frente aos olhos.
Tem 6 anos, um sorriso cheio de esperança na beleza das coisas e uma coroa de flores.

Abre os olhos. A realidade não é mais paralela, e a dor violenta-a, ali, no carro.
Sai em esforço, confusa com o tempo parado em poça de memórias, e imagens, e sons e vozes.

Caminha direita e vê ao fundo a igreja. Ignora o medo que a sova no estômago. Caminha em frente. Caminha direita.
Ainda ninguém chegou. Agradece por isso.

Entra.

E o destino ao fundo impondo ordem na desordem.

Acende as velas do altar. Ajoelha-se no chão e fecha os olhos.

- Minha senhora?

Mantém-se ajoelhada do chão de frente para o altar, procurando beber o fogo quente que emana das velas.

- Façam o que têm de fazer.

Tem 100 anos, ainda, por viver. Mas atrás de si arrumam-lhe o caixão, de mais um que partiu.

Falta-lhe o para sempre. Falta-lhe, de forma fria e absurda, a fé no mais além do para sempre.

E ali, na celebração da morte apenas como um início, ela percebe que o vazio que lhe habita, não é leve nem etéreo, mas grave, grande e cinzento.
Porque lhe falta a razão da fé.
Falta-lhe, em jeito de choro sem lágrimas, o perdão aos outros. Falta-lhe o impossível perdão a si.

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[Querer e somar]

por Ana sem saltos, em 31.10.17

Quero mais.

Do verbo querer.

Da conta de somar.

Mais amor nas entrelinhas, linhas e pontos finais. Mais visão além do olhar, mais empatia e entrega, mais verdade,

nos atos, palavras e omissões.

Mais.

Somar sempre ao que já é absoluto, mas não deixar de querer. E querer mais, sempre mais, sem deixar de ver o que já se tem. Somar sem subtrair.

Valorizar os segundos, um por um, até que deixem de me contar o ritmo do tempo. E olhar em frente, sempre, nesta conta que me acrescenta alma e entrega e amor. E às vezes dor.

Mas quero. Mais. Nas linhas, entrelinhas e pontos finais.

Olho a janela. Escurece mais um dia. Sombra cinzenta que assalta o mundo, o meu mundo, feito de beijos e girassóis. E suspiro, na vaga fronteira de alegre melancolia.

É infinita, triste e bonita esta conta que me soma,

e divide

e multiplica.

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Velha de dentro

por Ana sem saltos, em 25.10.17

Sentada na poltrona antiga e debotada, perto do fogo quente da lareira, afugenta, em vão, o inverno sombrio que a invade. Ela, a senhora bonita. Fecha os olhos. Sonolenta e cansada, velha por dentro mas nova na carne, fecha os olhos procurando apagar a exaustão.
Mas é inútil o seu esforço, na verdade, porque o cansaço que sente está longe de ser esgotado com o sono. A carne é nova, velho é somente o coração.
Lá fora começa a chover, primeiro em tímido chuviscar, para segundos depois desabar em rios imensos enublando os vidros da janela.


Troveja.


Abre os olhos.

Vida bonita e triste.

Levanta-se, sabe que tem pouco tempo. O tempo...


Encosta o nariz na janela, como fazia em menina por fora e já adulta por dentro. Lambe a janela.
Está escuro, tão escuro lá fora. Como ela também, cedo nas horas mas tarde no céu.
Odeia o inverno. Ama o ódio que lhe tem.
O silêncio invade-a devagar, como onda mole em vazar de maré, e sente, de repente, uma fome insaciável. Afasta-se da janela, vê as suas marcas no vidro. As palmas das mãos, dedos longos e esguios, treinados em horas de sonatas ao piano. Vê a boca, treinada em beijos longos e grandes. Vê as marcas do seu corpo novo, carne bonita, casa de alma cansada.


E lá fora o céu troveja em fúria.


De repente as luzes apagam-se. E o silêncio ganha toda uma nova dimensão nesta ausência agora de formas. Mas a lareira em brasa, alenta ainda a fome que sente. A luz laranja e morna permite-lhe saber quero mundo é real, sim, na noite de fora, nos contornos da poltrona, na marca dos lábios e dedos no vidro da janela.
Senta-se no chão, cruza as pernas, envolve-se num abraço todo seu. Liberta-se em suspiro chorado.

 

Nova e bonita por fora. Tão velha e cansada por dentro.


A porta abre, e ele entra. Olham-se em silêncio no escuro lambido pela leve luz da lareira.


A porta fecha.

E lá fora troveja.


Olham-se sem voz, quase sem se ver, ele de pé, sustendo o ar, ela sentada, chorando em suspiro.
Ele aproxima-se, devagar, e ajoelha-se em frente dela.
- És tão bonita...
E ela desaba em soluço, porque é nova na carne, nos lábios, nas mãos que mancham o vidro da janela. Mas é velha, tão velha por dentro.
Segura-lhe o queixo com as pontas dos dedos, e eleva-lhe o olhar, novamente de frente para o seu. Mas ela fecha os olhos, perdida num choro sofucado por milénios. E então ele beija-a da boca, nova e bonita, sugando-lhe a tristeza antiga que lhe mora por dentro.


- És minha meu amor.


As mãos procuram-se no choro dela, no sussurro dele. E a carne junta-se, funde-se, une-se, num para sempre jamais inquebrável.


E lá fora troveja,

e chove

e é escuro.


Mas lá dentro ela é nova por dentro de novo, e ele devora-a faminto, não pela carne nova e bonita, mas pela velha  que se evapora em cada suspiro.
- Perdoas-me senhor de mim?


E engolem-se, agarram-se, procuram-se tão além do corpo.


- Amas-me menina de mim?
- Amo tanto que dói.
- Então perdoo-te tudo. Perdoo-te sempre.

O céu cala-se.
As luzes regressam às lâmpadas.
E eles, acordados de novo, reencontram-se na luz, em meia vida já passada juntos,

e mais meia ainda por viver.

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Entra

por Ana sem saltos, em 26.09.17

Era uma menina apenas, feita de sonhos e alma, quando se sentou na beira de um estranho e lhe contou sorrindo, como matara o seu cão e amigo.

 

Dei-lhe a melhor carne que encontrei no talho nesse dia, lembro-me que usei todas as moedas do meu mealheiro e ainda tive de por valor na conta da minha mãe. Levei-o pela trela, velho e moribundo, eu sabia que lhe doía cada passo, mas jamais me negaria a vontade. Meu velho amigo. Esqueceu todas as dores quando lhe atirei para longe o naco de carne. E eu esqueci as minhas quando o vi correr como antes. Depois disparei a pistola de bolso do meu avô, e chorei até sentir secar o coração.

 

Nasce o sol ao fundo, em tons de laranja e azul. Sentada na areia da praia, espera a luz do dia, espera o calor do sol, espera esperando sentada, que o fora lhe entre por dentro.

 

Promete-me que vais sempre sorrir-me assim.

Prometo-te antes que sempre que sorrir, será assim.

 

E o sol escorre lambido montanha abaixo, inunda devagar o areal húmido da praia e mergulha, por fim, do mar. Levanta-se e caminha descalça, caminha gelada, direita, exausta. Inspira fundo o ar renovado da manhã.

Não há espaço nem pessoas, não há nada, só ela, o frio de dentro e o mar ao fundo lambido pelo sol.

Não sabe que tormentas a invadem, não reconhece o silêncio nos intervalos das ondas, não sabe mais de onde vem nem para onde vai.

 

- Eu sabia que te ia encontrar aqui.

 

Ficam lado a lado olhando o horizonte.

 

- Eu sabia que acabarias por me encontrar.

 

E sorriem, a menina descalça e o estranho calmo que lhe conta a respiração.

 

- Onde tens andado menina do meu coração?

 

De olhos fechados procura-se, e encontra-se na voz calma dele.

 

- Sabes que mesmo quando não te quis continuei a amar-te?

 

Rebenta a onda em cima dos pés. E recua mansinha em jeito de lágrima.

 

- Eu não sei nada meu amor.

 

- Claro que sabes. Desculpa-me.

 

Ele estende a mão e agarra na dela. Ela recebe-a, faminta, ajoelha-se no chão e chora. Ele senta-se ao lado dela, fixo, sempre, no azul do mar, e aperta-lhe a mão deixando-a chorar.

 

Sempre invejei esse teu portão aberto, amor da minha vida. Assim sei quando posso entrar.

 

weir-s-beach-rv-resort.jpg

 

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Lenho para lágrimas

por Ana sem saltos, em 30.08.17

Entra no quarto. Está escuro, demasiado escuro,

Fizeste o jantar?

Vai-te foder.

Odeio que estejas zangada comigo...

 

Mora-lhe na pele um desassossego insaciável, uma comichão na alma, uma fome de mais.  Aos poucos a visão habitua-se à escuridão transformando o preto da noite em vultos do que lhe é familiar.

Ontem pensei em ti sabes?

Não quero que penses em mim, já te disse.

 

Vê a cama, vê a escrivaninha, amontoado de folhas amachucadas, pedaços de historias sem principio, nem meio, nem fim.

Um amor eterno e valente, carne em explosão, sede que não morre.

Uma mãe solenemente triste, entregue à impotência de não saber amar.

Uma velha que nunca viu o mar.

 

Vê as portadas da janela, madeira antiga e pesada, fechadas, trancadas. Odeia de morte as janelas fechadas. Abre-as e observa a lua.

Quarto crescente vês filha? É agora que deves cortar o cabelo, já está comprido de mais.

Oh avó deixe-se de coisas.

 

Deitado na cama dorme o seu amor maior. Acalma-se na respiração dele, conta-lhe em palmos o infinito de alma que lhe mora. Sorri-lhe chorando, mas ele dorme sossegado.

A tua bondade é uma afronta sabes?

Quero morrer a beijar-te na boca mulher bonita.

 

Sai do quarto zangada. Sai do quarto dessossegada,

Desassossego de alma que não morre nem atenua, que não dói, mas mói.

 

Passa a sala, na penumbra do descanso, atravessa o corredor, abre a porta e sai. Inspira o orvalho da noite, de cheiro a terra e a vida, dor de vésperas de chuva.

Chora céu. Lava-me. Leva-me.

 

Atravessa o jardim, e senta-se perto da lagoa, vê o seu reflexo na água inacreditavelmente parada.

Casas comigo?

Já casei.

Casas de novo?

 

No topo do céu a lua em estoiro. No topo de si um súbita calma. Inspira, e olha-se,

Estou em paz sabes? Mas não sei se estou feliz...

És linda de mais para não estares feliz.

 

Chora parada. A boca não mexe, os olhos não piscam, o ar não entra nem sai, rola-lhe em massa densa e gorda um milhão de lágrimas ensopadas de si. Tira do bolso uma navalha.

Já te disse que não quero essa porcaria à vista,

Olha, porquê?

Porque não, odeio essa navalha.

 

A noite é uma coisa maravilhosamente assustadora. Dançam as estrelas ao ritmo de soluço estagnado, parado como a água da lagoa que lhe mostra em estalo o reflexo impávido de si.

Abre a navalha, encosta-a no rosto, enterra-a devagarinho, e abre um lenho fundo, definindo, finalmente, um  caminho e destino para as lágrimas que solta em cascata.

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Abraço de onda de mar

por Ana sem saltos, em 01.08.17

Sentada no cume da rocha, ali na beira do estoiro das ondas, ali no limite da terra e do mar, pergunta-se do porquê das coisas. E as coisas, às vezes, não têm razões. São coisas, acontecimentos, alinhamentos.
Relembra a infância, tão cor de rosa e feliz, relembra o som das agulhas da avó a tricotar, melodia de cheiro a pão quente, cantada com o estalar da madeira no fogo.
E a onda vem e estoira mesmo de baixo de si, em lágrimas gordas de maresia.
- avó?
- diz meu bem?
- quando for crescida vou ser sereia.
Lembra-se do sorriso da avó, acenando-lhe que sim e contando as malhas do tricot. Lembra-se do seu coração de menina, tão crente na verdade das suas vontades.

Existe algo no presente que pinta em cores e cheiros as memórias do passado. Existe mais, sempre, para além dos segundos somados em minutos, somados em horas, somados em vida que corre sem nunca parar.
Aproxima os joelhos de si, abraça-os como quem abraça um filho em dor, e encosta aí o queixo. Unida em si, abraçada por si, ali no cume da terra e do mar, ali na beira da fúria das ondas.
Cosem-se as lágrimas, esquecem-se os porquês.
Levanta-se, une as mãos no ponto mais alto de si.
Estica a alma e o corpo, em suspiro gritado sem voz.
E sorri.
Dá dois passos atrás, deixa vir em remoinho o bom e o mau, deixa vir em turbilhão de ar a esperança, deixa vir tudo o que tem de vir.
E perdoa-se em ânsia de beijo na boca.
E então corre, finalmente liberta de si, e atira-se em salto dançado, para onde é recebida num abraço profundo de onda de mar.

Já sou crescida, diz-me a velocidade do tempo, e ainda quero ser uma sereia.

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Obrigada.

por Ana sem saltos, em 17.07.17

De tempos a tempos era assim que fazia. Em recebendo as primeiras ameaças de descalabro, naqueles dias em que nada conjuga, os segundos não se alinham, o fio condutor das coisas e da vida estoira em bomba invisível, fazia tão somente assim:

Para [do verbo parar].

 

Primeiro o corpo, parado numa qualquer posição, braços para baixo, ar travado no peito, olhos focados no último segundo que lhe virou a alma.

Depois a cabeça. Enorme barragem ao rio furioso e descontrolado de pensamentos, todos entupidos ali, apena por uns momentos.

 

E, então, o maravilhoso vazio. O tão apreciado silêncio.

Só assim, parado o tempo e a velocidade dos segundos, parado o olhar naquela que foi a última gota de água, parado o corpo em jeito de pausa, sem ar nem para dentro, nem para fora,

só então,

 

ouve em chilrear de passarinho, o coração ao fundo, em jeito breve de onda de verão, cheiro a lar e flor de jasmim.

Desculpa se me esqueço de ti...

 

E ele fala, baixinho, muito baixinho, mas fala, sempre.

Sábio é aquele que sabe parar só para me escutar.

 

E agora sim, já podes, expira, abre as portas à barragem, deixa ir o rio, fecha os olhos e bebe o escuro, cai de joelho no chão, ainda que doa, muito, mais do que parece suportável, e agradece.

Agradece tudo.

Agrade sempre.

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