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Livro de vida (IV)

por Ana sem saltos, em 23.05.17

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

Terceira parte aqui

 

Há uma coisa importante que te devo dizer, antes de te contar a minha, que é a nossa, história. O amor, ao contrário do nos é imposto, do que aprendemos nas regras e culpas, atos e omissões, não tem forma e formato. O amor é antes uma forma de ser e sentir, e pode estar presente em qualquer momento da nossa vida, na amizade, na tristeza, na fé, na euforia. Na carne também, ainda que não seja esta a regra única e última de concretizar a urgência no amor.  Não sendo eu a mais sábia, creio que te posso afirmar agora, no fim da linha daquela que foi a minha vida. A única regra que baliza este que é o sentimento que nos inspira e aspira a poetas, é a entrega. Sem entrega, minha querida, não há nada, na verdade, mas muito menos há amor. E foi por isso que demorei tantos anos a perdoar a minha mãe, senhora altiva e imponente, depois de a ver ali, entregando-se no cume de si, sem olhos nem espartilhos. E agora que penso... foi a única vez que não lhe senti gelo na voz.

 

De volta a casa e às regras, novamente com rédea em si, Vera foge para o quarto, e depois de se secar deita-se na cama, inerte e exausta.

Há na lágrima um estranho poder de libertação. Ainda que não cure a dor, liberta-nos da tensão, e agora sentia-se profundamente cansada.

Batem à porta interrompendo-lhe o reconfortante vazio que conquistara para si. Vera senta-se na cama, de repente ansiosa e assustada, e se lhe vissem o que viu?

 

- Não me sinto bem, estou deitada.

 

Do outro lado um silêncio de eternos segundos.

 

A porta abre e a mãe entra.

Vera engole a raiva e o medo, e olha de frente a mãe. Sente a cara a ferver, num vómito surdo de perguntas que não pode fazer.

 

- Levanta-te. Hoje temos um jantar, o teu pai deve estar a chegar e convidou o novo médico. Tens meia hora para te arranjares.

A mãe vira-se novamente, direita e alta, linda e dura. Vera olha-a de trás, nunca seria assim, direita no torto, impecável no sujo, e sente-lhe um ódio profundo.

- Mãe?

 

A mãe vira-se e olha-a de cima, bonita e direita, linda e dura, uma estátua altiva, perfeita, gélida. Sorri para a filha, mas nos olhos, lá no fundo do poço azul, vê-lhe mais. Mágoa?

 

- Por amor de Deus Vera. Endireita-te. E arranja-me esse cabelo, não sejas vulgar.

Vera baixa o olhar, invadida, derepente, por uma vergonha enorme.

Vulgar. Não sejas vulgar.

E não perguntou, evidentemente, aquilo que nem sabia perguntar.

A porta bate, e ouve-se em eco nas paredes

És uma senhora Vera, é isso que esperamos de ti.

 

 E Vera levanta-se, olha-se no espelho,

ser sem parecer, vulgar na cara e no andar,

e escova com força o cabelo, negro, farto e solto, procurando restabelecer, ali, nos fios emaranhados e molhados de cabelo, a ordem na desordem de si.

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Livro de vida (III)

por Ana sem saltos, em 12.05.17

 

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

 

A sensação primeira, foi a de queda no abismo. Queda a pique no vazio.

A reação à queda foi a de fugir. Abrir a porta e andar, andar depressa e a direito, passadas em frente, na procura de um destino ao soluço que a entope por dentro.

Não existe propriamente um pensamento, uma racionalização, só uma raiva enojada, um enjoo dorido e peganhento, e de repente o espaço é pequeno, as paredes esmagam-na, os castiçais e serviços de prata, os criados e as salas e salões, de repente o grande e bonito é minúsculo e sinistro, e esmaga-a, pisa-a de cima, mostra-lhe o pó por de trás das molduras.

Um vida inteira direita e regrada, tão bonita de se ver de fora, na casa e jardim, nome em figuras de cristal, a família elegante e imponente,

Uma senhora senta-se direita.

Uma senhora não se ri, sorri

Uma senhora não chora, sorri,

engole a lágrima, não sejas vulgar.

Endireita-te, olha para baixo,

Não interrompas, concorda,

Não fales de mais,

Não te cales tanto,

Segue atrás o teu pai, baixa o olhar,

Ajoelha-te na igreja, comunga de olhos fechados,

 

És uma senhora Vera, há um nome que carregas. Endireita-te e sorri,  é isso que esperamos de ti.

 

Dá-se conta, de repente, que não respira. Não sabe há quanto tempo, continua em frente direita, em passada rápida e ritmada, o céu escurece de forma drástica,

Costas direitas, não sejas vulgar,

Estarei a sorrir?

 

e o céu estoira em pranto.

E Vera expira, finalmente, num grito surdo que solta para dentro. Ensopada por fora, cabelo emaranhado, molhado, despenteado,

uma senhora...

 

o vestido cola-se nas pernas, sente peso no andar. Ao fundo vê a capela, e sente esperança, de súbito, no conforto dos bancos de madeira, cheiro a incenso e fé, para de andar e começa a correr, finalmente com um destino aos passos e lágrimas, finalmente com esperança de calma e respostas. Ordem. Desejo profundo de ordem na desordem.

Sobe as escadas, e a porta grande da pequena capela está fechada. Chove a cântaros, percebe, de repente, que a sua figura deve assustar, percebe, de repente, que a porta está fechada.

Não há ordem na desordem, nem respostas às perguntas.

Vera, que se espera senhora, é menina apenas, e não sabia do verniz que estala, não sabia da aparência que apenas parece, não sabia de nada, afinal. Senta-se nas escadas, já indiferente à chuva e ao que pode parecer vista de fora, indiferente ao vestido enlameado e pesado, à cara sem sorrir e assumidamente a chorar, é vulgar apenas, no choro em chuva em coro com o céu.

 

- Precisa de ajuda?

 

Assusta-se, levanta a cara, e olha à sua frente um rapaz senhor, como ela menina senhora, direito, alto, debaixo de um enorme chapéu preto. Baixa-se, entrega-lhe o chapéu e tira o casaco para lhe cobrir os ombros. Senta-se ao seu lado e acende um cigarro.

E Vera esquece que tem um nome e um peso, esquece que chove por dentro e por fora, esquece o que lhe esperam, de que lhe vale afinal?

 

- Peço desculpa, eu, bem, desculpe...

- Chamo-me João, cheguei agora. Esteja à vontade, a sério.

 

E encosta a cabeça no ombro do rapaz senhor, finalmente abrigada da chuva de fora, libertando sem pudor a chuva de dentro.

Só então permite que lhe venha em tiro a imagem,

 

Passa o corredor, é hora do chá,

o pai não está mas a mãe vai gostar de me ver a horas,

 

 

lembra-se do leque da mãe, volta atrás, tão bem posta e orgulhosa de saber as regras, mas não é perfeita,

és tão vulgar Vera,

tão gélida e limpa a sua voz, mãe,

 

 

e entra sem bater no quarto dos pais.

E o que primeiro não percebe em penumbra morna e de novo cheiro, visualiza em murro no estômago,

uma senhora não ri,

 

a gargalhada gemida de baixo dos lençóis,

Uma senhora não quer,

 

e a senhora querendo ali, deixando-se querer, despida, no vulto, nos vultos dos dois que não conhece,

Reconhece?


a mãe e o outro, no cheiro, na carne, no escuro, no riso, ombros, cabelos, mãos e pernas.

Uma senhora bate à porta Vera, endireita-te.

 

E Vera bate a porta e sai, engolindo o vómito que lhe sobe sem aviso a garganta.

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Livro de vida (II)

por Ana sem saltos, em 10.05.17

(Primeira parte aqui)

 

Olho-te daqui, do alto da minha experiência, do alto do fim, na verdade, porque falta um pequeno salto, consigo sentir. Mas nos olhos que te dei, novos e brilhantes, revejo parte de mim na esperança cansada, mas esperança ainda assim, e sei que vais sofrer. Vais sofrer minha querida, porque quem tem brilho e esperança, por mais que se canse, não deixa de sonhar. E sonhar, meu amor, é a única coisa que te exijo, mas aviso-te desde já: sonhar faz chorar.

 

- És feliz minha querida?

Ana sorri, Ana a menina crescida, mulher criança e esperança, sorri de verdade olhando o copo de vinho.

- Oh avó, tenho muita sorte na vida.

- Não foi isso que te perguntei.

 

Vera a matriarca, a sempre mãe, avó e mulher, balança a cadeira de forma leve e ritmada, olhos de mil anos que vêm muito além do que se olha. Olha a neta, e espera-lhe abertura, palavras e coração.

 

- Sou avó. Acho que posso dizer que sou.

- Ainda bem. Ainda bem minha querida.

 

Ficam assim as duas, uns segundos em silêncio, esperam e escutam-se ainda no que se conta sem palavras. E então a avó, matriarca e senhora da fé e do destino que passou, para a cadeira, pousa as mãos antigas no colo, e diz fechando os olhos:

- Conheci o teu avô num dia de chuva.  

 

Dentro de si, nas imagens que a escuridão lhe permite voltar a reviver, Vera passa em vendaval de tempo de senhora a menina, e está sentada nas escadas da capela, debaixo de uma chuva furiosa. Chove-lhe em cascata o coração também, jovem e inocente, doce e frágil, endurecendo naquela que é a dor gritante e aguda de uma primeira desilusão.

 

(Continua aqui)

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Livro de vida

por Ana sem saltos, em 26.04.17

Dia de verão, quente e longo, lá, na casinha, no monte, na aldeia. Dia de verão, de cheiro a fruta, a terra seca, dia de brisa quente, em fim de dia lento,

lento no tempo e no espaço, morno como suspiro de amantes.

 

Senta-se no alpendre, abre a boca, e engole aquele ar denso, cheio de cheiros e minutos, cheio de vidas e segundos.

Sente no corpo a passagem voraz dos dias em meses, dos meses em anos. 94 primaveras, verões, outonos e invernos, um desdobrar imenso das estações que se repetem, tornando-a ali, tanto tempo depois, única. Única nas mãos, única na voz, única nas palavras que acumulou, guardou, enfatizou dentro de si.

 

Baloiça a cadeira e fecha os olhos,

Se eu fechar os olhos ninguém me vê...

 

Sorriu à lembrança destas palavras, que, não sendo verdade absoluta, foram verdade imperativa para si, sempre que, em pânico, alegria, dor profunda ou euforia, fechou os olhos e encontrou-se no escuro de si.

 

- Ana?

Chama de olhos ainda fechados, livre e solta no mundo que ali encontra, nova em velha nas histórias que para si reconta, baloiçando a cadeira, no alpendre, na casa, no monte, na aldeia. E a voz sai-lhe antiga também, frágil e baixa, em timbre cantado de histórias contadas ao ouvido de quem se ama.

 

- Dois segundos avó, já aí vou!

 

Dança de brisa, de olhos fechados, em dia mole e morno, denso e palpável, como se quer um fim de tarde de verão.

E então decide ali que está na hora, antes que as horas deixem de se repetir.

Abre a boca e repete em sussuro rebuscando os cantos das memórias de si:

- Ana, minha querida, chega aqui.

A minha vida é um livro e eu quero lê-lo para ti.

 

(Continua aqui)

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Arma sem balas

por Ana sem saltos, em 18.04.17

Abre as portadas todas de casa, janelas escancaradas de par em par, e o quente da lareira esfumaça-se, evapora-se, é engolido pela brisa gelada de janeiro que entra casa a dentro sem cerimónia.

Continua descalça e em camisa de dormir,

imune ao frio e ao quente, imune a tudo, carregada de nada,

 

abre as camas, sacode os lençóis, puxa as cobertas para trás numa fome insaciável de limpeza.

Entra na casa de banho, ajoelha-se no chão e esfrega a banheira com lixívia, depois os azulejos, um a um, brecha a brecha, levanta-se e limpa o espelho com  papel de jornal. Troca as toalhas, estende as de lavado, tira a cortina do duche e põe para lavar também.

Faz tudo de forma ritmada, nem rápido, nem devagar, faz, só, de forma mecânica, séria e gelada.

Limpa, esfrega, arruma, respirando devagar. Calma, terrivelmente calma.

Foge da mente, foge do nó,

Foge do caminho que não encontra, da lágrima que já não vem.

 

Limpa, arruma, esfrega, sacode.

Da janela escorre o dia para dentro de casa,

Entra o fora no dentro,

Entra o frio levando o quente,

 

lindo, vigoroso, mas implacável e gélido.

 

E de forma mecânica ela continua, indiferente ao frio e às mãos que sangram, indiferente à indiferença pesada e sinistra que a devora por dentro.

Passam os minutos que se transformam em horas.

Para, finalmente, e olha à volta. Sorri a boca, em reação sem coração, satisfeita e gelada com o gelo limpo e branco da casa.

Só então a invade o cansaço físico, nas costas que doem, nas frieiras em sangue das mãos, nos joelhos esmurrados. Só então sente no corpo a dor de dentro, ainda que vendo com os olhos o imaculado da casa, branca e brilhante, vazia de bactérias e pó. Olha o relógio da parede, de súbito perdida, de súbito em pânico, olha-se depois no espelho, de súbito triste, de súbito desiludida, vendo a imagem que lhe devolve o reflexo,

mulher imaculada, triste e despenteada. Mulher de boca que ri e olhos que não choram.

 

Engole o soluço seco de lágrimas.

Ouve a chave na porta, salta-lhe o coração, finalmente vivo e desritmado, finalmente numa batida imprevisível.

Sente uma satisfação estranha no pavor que a invade, olha mais uma vez a casa imaculada e gelada,

 

- Querida, cheguei! Que frio é este endoideceste?

 

Sobe as escadas, descalça, despenteada, fria, ferida.

Entra no quarto, abre a gaveta e tira a arma.

 

- Onde estás?

 

A voz de sempre lá em baixo, consegue pressentir o susto, o medo, o amor em excesso que não lhe cabe, que não merece. Mas está tudo fora de si, paira em seu redor, a vida, os segundos, o amor e a dor,

pressente mas não sente.

 

Ouve os passos rápidos a subir as escadas.

 

Coloca o cano na boca,

a porta abre,

ele entra,

e ela dispara.

E no ar vazio e gélido, limpo e imaculado, do quarto, na casa, no monte, no nada, ouve-se um clique surdo de arma disparada sem balas.

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Encontra-me

por Ana sem saltos, em 10.04.17

Acorda em sobressalto. Não era a primeira vez. Agora, todas as noites, via-se arrancada dos sonhos à bruta. Senta-se na cama e espera, ofegante, que passe o susto de não se saber mais.
Desta vez levanta-se. Não era dia, ainda, mas também não era noite. Abre a porta de casa e recebe em dádiva o cheiro de uma manhã de primavera,
Contraste absurdo com a tempestade

de,

em,

por si.


Sai de casa, descalça, de alma vazia e flutuante, e desce em ponta dos pés para o jardim. Deita-se na relva, húmida das noites ainda frias, e olha o céu.

Não é negro, não é azul.

Não tem estrelas, não tem sol.

Indefinido ali, em tons de roxo e lilás,

mancha soberba de cor sem nome,

céu enorme, sem cara, sem nada.

 

Desponta apenas, lá no alto, uma lua minúscula que se despede em minguante faminto, ridícula naquela imensidão sem rosto.

Ergue as mãos e olha-as de forma demorada.

Abre-as. Fecha-se. Roda-as sobre si.
Encontra sempre nas mãos uma resposta qualquer. Olha os dedos, as palmas, as unhas. Estão fortes ainda, decididas no abrir e fechar, parar e rodar.

Toca a cicatriz que tem na palma. Agarra uma mão na outra, enlaça os dedos da direita na esquerda, une-as num abraço apertado,

de si, para si.

 

Alma perdida em desassossego, na busca incessante e exaustiva de tudo.

Mas sabe-se, então.

Sabe-se, sabendo quase nada, que enquanto se identificar nas mãos, pode chorar, dormir e acordar, pode correr, procurar e esperar, porque ainda que não se encontre, está, algures, lá. Seja esse lá onde for.

Levanta-se, apoiando as mãos no chão. Ao fundo, no monte, o sol já desponta no céu. E o lilás, que não é lilás, começa a assumir agora o azul do dia. Assusta-se com o vulto sentado no chão, olhando-a fixo de frente.

Amor de sempre, amor para sempre.

 

- Assustaste-me, o que estás aí a fazer?

Mas ele não lhe responde. Olha-a fixo, sentado no chão. Olha-a para dentro, como se nem se quer a visse por fora, sério e absorto, com as palmas abertas pousadas no chão.

Ela ajoelha-se à sua frente. Olha as mãos no chão, e só então expira. Aproxima-se devagar, e põe também ela as palmas na relva, frente a frente com as mãos dele.

Destino traçado e unido nos vincos das palmas,

História vivida, no atropelar dos dias, incessantes na passagem, na descoberta, na procura, no desencontro, no perdão.

 

- Perdi-te?

Pergunta-lhe por fim.

 

Ela levanta as mãos do chão, e pousa-as nas mãos dele. Apoia-se e inclina-se para a frente, aproxima a cara da dele, até ficarem separados apenas por milímetros. Olha-o fundo nos olhos,

Mão direita na sua mão esquerda, mão esquerda na sua direita,

 

- Não meu amor. Encontraste-me.

Acabaste de me encontrar.

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Menina, mãe e mulher

por Ana sem saltos, em 03.04.17

- Sou pequenina, não vês?? Não vês que sou pequenina!

Ela olha-a zangada, vendo a fúria da filha ser engolida pelo desespero, na frase que solta em berro chorado.

E a zanga que sentia, ela mesma, há dois segundos atrás, é então substituída pela surpresa. E a surpresa entrega-lhe em chuva miúda a sensação de queda no vazio, a inesperabilidade de, de repente, não saber como reagir.

E a menina ali, à sua frente, chorando em desespero, zanga e coração, tudo ali exposto, terrível e sinceramente espalhado nas pernas, pele, olhos e lágrimas...

Que sorte tens minha filha... que sorte tens.

 

Limpa-lhe as lágrimas, e toma-a no colo, expulsando-lhe o desassossego e angústia num abraço. Apaga-lhe os medos e a fúria cheirando-lhe o pescoço.

Devia manter-se firme, mas, e sem nunca ter confessado a ninguém, questiona-se se este ceder constante às vontades implacáveis da filha, este poder que, por enquanto, ainda exerce de lhe poder devolver a alegria apenas com um abraço, reconfortará mais a filha menina, ou a mãe mulher.

Larga as palavras que a assombram, cospe-as para bem longe de si, e entrega-se ao quentinho insubstituível do choro ceder na dança, e dar lugar ao sono que vem sem aviso, tão inesperado e repentino como qualquer reação da menina. Conta-lhe a respiração em palavras cantadas baixinho,

Inspira...

Expira meu amor.

 

Só depois de entregar a filha ao sonho, se senta a mãe

A mulher?

 

com o fruto de si seguro no colo. Olha aquele corpo pequenino, ali encaixado em si, como se nunca tivesse esquecido o caminho que a fez pessoa no seu corpo mãe.

Relembra a explosão da filha, indignada com a zanga da mãe, e então inveja a menina, coração  fúria e vontade, espalhados na pele, no rosto, na voz, chorando, berrando, inocente e egoísta, perfeitamente consciente do que quer para si.

Odeia-se profundamente naquele momento, em que conta o respirar da filha aninhada no seu peito de mãe, e sabe que a sua zanga, todas as suas zangas, são fruto da sua necessidade de garantir que passa a herança à menina dos seus próprios filtros de mulher crescida.

Odeia-se mais profundamente ainda, quando se tenta lembrar da última vez que foi voz e coração, na pele, vontade e olhar, e não encontra uma imagem se quer que a conforte, ali no poço fundo das memórias de si,

de menina, mãe e mulher.

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Para, amor

por Ana sem saltos, em 01.04.17

Quanto cabe no teu Coração amor?

De tempos a tempos faço isto. Paro, e escuto. Escuto-me.

Quantas vezes te ouves amor?

Os dias atropelam-se, é inevitável, quanto mais tempo passa, mais veloz e implacável é a sua passagem. E se não parar, assim de tempos a tempos, esqueço-me das coisas mais simples. Esqueço-me de ver, em vez de olhar. Esqueço-me de agradecer, em vez de me queixar. Esqueço-me que, no final do caminho, valem os segundos que podemos ter deixado passar. Valem os obrigadas que podemos ter deixado de dizer, ou pior, de sentir. Por isso paro. E olho. E escuto. Se for preciso, choro também. Cabe em mim, afinal de contas, muito mais do que julgava. Dentro do bom, o ótimo. Dentro do mau, o péssimo. Dentro do que é mortal, aquilo que sei e sinto que é infinito, ainda que morra amanhã. Por isso paro. Tenho de parar de tempos a tempos. Tenho de agradecer, tenho de me perdoar. Sou dona de nada em mim, e por isso é urgente, tão urgente, saber parar, rir, chorar, amar e perdoar. Dona de nada, agradecida por tudo.

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Volta, perdoa-me

por Ana sem saltos, em 27.03.17

Levanta-se de manhã bem cedo, lava a cara, abre a janela do quarto.

Olha o mar imenso, ao fundo, ali do alto da mais alta colina. Deixa que entre o ar morno de primavera, os odores em mistura de sal e flor, o sol, morno, tão morno que quase pode jurar que o vê escorrer na pele. Desce para o pequeno almoço. Põe a mesa, como sempre fizera, de forma cuidada e aprumada, estende a toalha de linho vincada, renova a água das fores do campo que colhera na manhã anterior, põe o café ao lume e o pão a aquecer no forno. A seguir, põe os talheres e os pratos, loiça antiga e fina, imaculada e brilhante, dois lugares, o seu e o do seu,

Amor valente, amor para sempre.

 

Abre as portadas para o alpendre, e deixa entrar o dia em estoiro.

Serve o café quente nas duas chávenas.

Abre o pão, e barra-o com mel.

 

E lá fora o dia, brilhante e colorido, quente e harmonioso, como música de natal de coro infantil.

- As pessoas não entendem, sabes querido? Mas também nunca entenderam... quem se ama ao fim de mais de sessenta anos juntos?

E ri-se olhando de frente, de olhos quase fechados, de chávena quente junto ao peito.

Rugas antigas contam aos mais sábios os seus caminho de vida, mãos sapientes de quedas e curvas.

Acaba o café, e levanta a loiça da mesa, lava devagar, como sempre fizera, o prato, a chávena, os talheres, olhando o mundo do lado de lá da janela, verde e vaidoso, quente e provocante.

- Não vais dizer nada hoje? Está um dia lindo...

O silêncio irrita-a. O dia excessivamente brilhante, excessivamente colorido, excessivamente vivo, também. Olha para trás zangada, deixa cair o prato no chão, que se despedaça em mil pedaços de loiça fina, antiga, cuidada toda uma vida, polida diariamente, ali, atirada no chão.

- Vês? Vês? Olha o que me fizeste fazer, a loiça antiga da minha avó, francamente, olha para isto!

Olha de frente para a cadeira, zangada, tão zangada, como há milhões de anos não se zangava.

Ajoelha-se no chão a apanhar os cacos, um a um, na esperança de os colar de novo, na esperança de restituir a calma roubada pela fúria inesperada.

- A sério, nem se quer me vais ajudar?

Levanta-se, com uma vontade bruta de chorar. Assusta-se olhando a cadeira vazia.

- Onde estás?

Invade-a o pânico, invade-a a desesperança,

- Onde estás, vá lá, é só um prato querido, não faz mal. Onde estás?

Abre a porta de casa, leva um estalo do dia, da vida quente e brilhante em cheiro, cor e flor.

Dói-lhe o corpo, antigo e cansado, doem-lhe os olhos, do estoiro de luz, dói-lhe a alma, em desassossego, na memória que puxa mas não vem, ali mesmo à porta de si, no pânico de se ver ali sozinha.

Desce o alpendre, e caminha descalça, indiferente às silvas que a arranham nas pernas, ao sol que lhe fere a vista, à dor de dentro que a puxa para baixo, fixa no pensamento em alucinante rodopio,

Volta

Perdoa-me,

 

caminha andando, caminha chorando,

 

Volta

Perdoa-me,

 

até chegar ao cume da ravina,

Volta

Perdoa-me.

 

Respira por fim. Acalma-se na linha do fundo, sempre gostou de linhas. A retidão do horizonte devolvendo-lhe a rédea ao coração, o direito ali definindo o fim do mar, estabilizando-lhe o ritmo da respiração.

Inspira fundo, de repente profundamente calma. Entra o dia, entra o mar, entra o cheiro a sal e flor, o som de onda e calor, e vêm, como dádiva, as memórias, uma a uma, devolver-lhe o eu, restaurar-lhe o que é seu.

Abre os olhos, sorri, sorri muito, com alma corpo e coração, e vê-se nova de novo, é  jovem outra vez, capaz de mundo e fundos, dentro daquele corpo antigo e dorido.

Em baixo o mar brilhante, chama-a em onda mole, lânguida, cantada.

E então, velha de vida, mas, de súbito, nova de novo, sorri, sorri muito, sorri com alma corpo e coração, e canta também, baixinho, em melodia morna de canção de embalar,

Já aí vou querido, já aí vou...

 

Fecha os olhos,

Inspira fundo,

Abre o braços, num abraço infinito ao dia em flor,

E dá um passo em de dança de valsa, voltando, finalmente, ao início de si.

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Reino da rainha menina

por Ana sem saltos, em 21.03.17

Tinha a certeza que ainda se lembrava do caminho. Os anos passaram, inevitáveis e precipitados, num arranque inesperado de criança a adulta.

Mas, se fechasse os olhos, tinha a certeza, ainda se lembrava do caminho. Abre as palmas das mãos, e caminha de olhos fechados, como se fosse possível regressar ao passado, numa breve viagem pela memória em cheiro e tato,

em sorriso inocente e feliz de quem ainda espera que a vida aconteça.

 

A sorte de quem sonha, é a de poder viajar pelos confins do já vivido e por viver. E ali, a mulher menina caminha devagar, sentido nas palmas das mãos as ervas bebidas pelo calor do verão, o cheiro quente do jasmim em flor, a terra seca por baixo dos pés. E sabe que volta, passo a passo, aos segundos onde já foi feliz.

Abre os olhos. Ali estava, o seu palácio de menina, erguido no carvalho antigo e cansado, nas raízes expostas ao sol, no céu absurdamente azul.

Senta-se à sombra,

trono imenso feito de sonhos,

trono imponente de rainha menina,

 

e olha à volta, devagar, devagarinho, centímetro a centímetro, o espaço que a coube pequenina, a memória que a sabe, agora, mulher.

E, se fechar os olhos, volta de novo atrás, aos atrases que bem entender, porque tem sorte, muita sorte, e cabe-lhe na entrega em forma de fé, a possibilidade de viver de novo o que passou, de reviver ao detalhe de cheiro, cor e sabor, tudo aquilo que pode ter ficado por viver.

E tem sorte, tanta sorte. Ali, no seu reino de rainha menina, de cheiro a terra quente e jasmim, pode lavar-se das magoas, pode renovar os votos de entrega, pode ser e viver tudo aquilo que lhe couber, tudo aquilo que quiser.

Sabe-o com toda a incerta certeza, sabe-o porque ali tem as mãos abertas pousadas na pedra quente, sentada na velha raiz erguida do chão, que é rainha senhora e menina, dona do mundo, dona do rio que já foi, dona do oceano que há de vir. Sabe certa e segura, que é dona de si. De todos os si’s das suas histórias, cravadas em tinta de alma no livro que lhe recebe as memórias.

Do que foi, do que não chegou a ser, e do que, se Deus quiser, há de estar para vir.

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