Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Entra

por Ana sem saltos, em 26.09.17

Era uma menina apenas, feita de sonhos e alma, quando se sentou na beira de um estranho e lhe contou sorrindo, como matara o seu cão e amigo.

 

Dei-lhe a melhor carne que encontrei no talho nesse dia, lembro-me que usei todas as moedas do meu mealheiro e ainda tive de por valor na conta da minha mãe. Levei-o pela trela, velho e moribundo, eu sabia que lhe doía cada passo, mas jamais me negaria a vontade. Meu velho amigo. Esqueceu todas as dores quando lhe atirei para longe o naco de carne. E eu esqueci as minhas quando o vi correr como antes. Depois disparei a pistola de bolso do meu avô, e chorei até sentir secar o coração.

 

Nasce o sol ao fundo, em tons de laranja e azul. Sentada na areia da praia, espera a luz do dia, espera o calor do sol, espera esperando sentada, que o fora lhe entre por dentro.

 

Promete-me que vais sempre sorrir-me assim.

Prometo-te antes que sempre que sorrir, será assim.

 

E o sol escorre lambido montanha abaixo, inunda devagar o areal húmido da praia e mergulha, por fim, do mar. Levanta-se e caminha descalça, caminha gelada, direita, exausta. Inspira fundo o ar renovado da manhã.

Não há espaço nem pessoas, não há nada, só ela, o frio de dentro e o mar ao fundo lambido pelo sol.

Não sabe que tormentas a invadem, não reconhece o silêncio nos intervalos das ondas, não sabe mais de onde vem nem para onde vai.

 

- Eu sabia que te ia encontrar aqui.

 

Ficam lado a lado olhando o horizonte.

 

- Eu sabia que acabarias por me encontrar.

 

E sorriem, a menina descalça e o estranho calmo que lhe conta a respiração.

 

- Onde tens andado menina do meu coração?

 

De olhos fechados procura-se, e encontra-se na voz calma dele.

 

- Sabes que mesmo quando não te quis continuei a amar-te?

 

Rebenta a onda em cima dos pés. E recua mansinha em jeito de lágrima.

 

- Eu não sei nada meu amor.

 

- Claro que sabes. Desculpa-me.

 

Ele estende a mão e agarra na dela. Ela recebe-a, faminta, ajoelha-se no chão e chora. Ele senta-se ao lado dela, fixo, sempre, no azul do mar, e aperta-lhe a mão deixando-a chorar.

 

Sempre invejei esse teu portão aberto, amor da minha vida. Assim sei quando posso entrar.

 

weir-s-beach-rv-resort.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Lenho para lágrimas

por Ana sem saltos, em 30.08.17

Entra no quarto. Está escuro, demasiado escuro,

Fizeste o jantar?

Vai-te foder.

Odeio que estejas zangada comigo...

 

Mora-lhe na pele um desassossego insaciável, uma comichão na alma, uma fome de mais.  Aos poucos a visão habitua-se à escuridão transformando o preto da noite em vultos do que lhe é familiar.

Ontem pensei em ti sabes?

Não quero que penses em mim, já te disse.

 

Vê a cama, vê a escrivaninha, amontoado de folhas amachucadas, pedaços de historias sem principio, nem meio, nem fim.

Um amor eterno e valente, carne em explosão, sede que não morre.

Uma mãe solenemente triste, entregue à impotência de não saber amar.

Uma velha que nunca viu o mar.

 

Vê as portadas da janela, madeira antiga e pesada, fechadas, trancadas. Odeia de morte as janelas fechadas. Abre-as e observa a lua.

Quarto crescente vês filha? É agora que deves cortar o cabelo, já está comprido de mais.

Oh avó deixe-se de coisas.

 

Deitado na cama dorme o seu amor maior. Acalma-se na respiração dele, conta-lhe em palmos o infinito de alma que lhe mora. Sorri-lhe chorando, mas ele dorme sossegado.

A tua bondade é uma afronta sabes?

Quero morrer a beijar-te na boca mulher bonita.

 

Sai do quarto zangada. Sai do quarto dessossegada,

Desassossego de alma que não morre nem atenua, que não dói, mas mói.

 

Passa a sala, na penumbra do descanso, atravessa o corredor, abre a porta e sai. Inspira o orvalho da noite, de cheiro a terra e a vida, dor de vésperas de chuva.

Chora céu. Lava-me. Leva-me.

 

Atravessa o jardim, e senta-se perto da lagoa, vê o seu reflexo na água inacreditavelmente parada.

Casas comigo?

Já casei.

Casas de novo?

 

No topo do céu a lua em estoiro. No topo de si um súbita calma. Inspira, e olha-se,

Estou em paz sabes? Mas não sei se estou feliz...

És linda de mais para não estares feliz.

 

Chora parada. A boca não mexe, os olhos não piscam, o ar não entra nem sai, rola-lhe em massa densa e gorda um milhão de lágrimas ensopadas de si. Tira do bolso uma navalha.

Já te disse que não quero essa porcaria à vista,

Olha, porquê?

Porque não, odeio essa navalha.

 

A noite é uma coisa maravilhosamente assustadora. Dançam as estrelas ao ritmo de soluço estagnado, parado como a água da lagoa que lhe mostra em estalo o reflexo impávido de si.

Abre a navalha, encosta-a no rosto, enterra-a devagarinho, e abre um lenho fundo, definindo, finalmente, um  caminho e destino para as lágrimas que solta em cascata.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Abraço de onda de mar

por Ana sem saltos, em 01.08.17

Sentada no cume da rocha, ali na beira do estoiro das ondas, ali no limite da terra e do mar, pergunta-se do porquê das coisas. E as coisas, às vezes, não têm razões. São coisas, acontecimentos, alinhamentos.
Relembra a infância, tão cor de rosa e feliz, relembra o som das agulhas da avó a tricotar, melodia de cheiro a pão quente, cantada com o estalar da madeira no fogo.
E a onda vem e estoira mesmo de baixo de si, em lágrimas gordas de maresia.
- avó?
- diz meu bem?
- quando for crescida vou ser sereia.
Lembra-se do sorriso da avó, acenando-lhe que sim e contando as malhas do tricot. Lembra-se do seu coração de menina, tão crente na verdade das suas vontades.

Existe algo no presente que pinta em cores e cheiros as memórias do passado. Existe mais, sempre, para além dos segundos somados em minutos, somados em horas, somados em vida que corre sem nunca parar.
Aproxima os joelhos de si, abraça-os como quem abraça um filho em dor, e encosta aí o queixo. Unida em si, abraçada por si, ali no cume da terra e do mar, ali na beira da fúria das ondas.
Cosem-se as lágrimas, esquecem-se os porquês.
Levanta-se, une as mãos no ponto mais alto de si.
Estica a alma e o corpo, em suspiro gritado sem voz.
E sorri.
Dá dois passos atrás, deixa vir em remoinho o bom e o mau, deixa vir em turbilhão de ar a esperança, deixa vir tudo o que tem de vir.
E perdoa-se em ânsia de beijo na boca.
E então corre, finalmente liberta de si, e atira-se em salto dançado, para onde é recebida num abraço profundo de onda de mar.

Já sou crescida, diz-me a velocidade do tempo, e ainda quero ser uma sereia.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Obrigada.

por Ana sem saltos, em 17.07.17

De tempos a tempos era assim que fazia. Em recebendo as primeiras ameaças de descalabro, naqueles dias em que nada conjuga, os segundos não se alinham, o fio condutor das coisas e da vida estoira em bomba invisível, fazia tão somente assim:

Para [do verbo parar].

 

Primeiro o corpo, parado numa qualquer posição, braços para baixo, ar travado no peito, olhos focados no último segundo que lhe virou a alma.

Depois a cabeça. Enorme barragem ao rio furioso e descontrolado de pensamentos, todos entupidos ali, apena por uns momentos.

 

E, então, o maravilhoso vazio. O tão apreciado silêncio.

Só assim, parado o tempo e a velocidade dos segundos, parado o olhar naquela que foi a última gota de água, parado o corpo em jeito de pausa, sem ar nem para dentro, nem para fora,

só então,

 

ouve em chilrear de passarinho, o coração ao fundo, em jeito breve de onda de verão, cheiro a lar e flor de jasmim.

Desculpa se me esqueço de ti...

 

E ele fala, baixinho, muito baixinho, mas fala, sempre.

Sábio é aquele que sabe parar só para me escutar.

 

E agora sim, já podes, expira, abre as portas à barragem, deixa ir o rio, fecha os olhos e bebe o escuro, cai de joelho no chão, ainda que doa, muito, mais do que parece suportável, e agradece.

Agradece tudo.

Agrade sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Amante de linhas

por Ana sem saltos, em 05.07.17

Sento-me na borda do muro, atiro os pés para a frente, largo-os ao acaso, como se os abandonasse, como se deixassem de ser meus.

E vejo-os, ali, no ar, balançando sem chão nem comando.

A hora é aquela que inspira os poetas a cravar o papel em tons de adeus. Luz morna e laranja, das que fazem das sombras enormes castelos.

Olho ao fundo o mar. Tão calmo e soberbo, tão infinito, na impossibilidade dos meus olhos lhe verem o fim.

 

Há mais além da linha do horizonte, ao fundo, recortando o mar em céu. Haverá com certeza mais, tem de haver, pois se todos os dias a vejo engolir o sol, sem pressas nem pudor.

Todos os dias igual, esta linha que come luz, todos os dias surpreendente naquilo que, ainda assim, é sempre diferente.

Dia,

após dia,

após dia.

 

Repete-se em mim a inevitabilidade do tempo.

E eu repito-me também,

é-me indiferente,

naquilo que vejo, serena, o tempo mudar em mim.

 

É assim, também, com o sonho que entorno,

sempre igual, naquilo que o torna diferente,

 

naquela linha perfeita que todos os dias devora o sol.

 

Apagam-se, então, as luzes. 

Já não há castelos de sombras.

Recolho os pés para cima, assumindo-os, novamente, como meus.

 

Sou amante assumida de linhas.

Principalmente das que se alimentam de luz.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Adeus em tons alfacinhas

por Ana sem saltos, em 01.07.17

Sentada na popa do navio, observo, ofegante, o quadro que o mundo me dá, ali, visto do lado de quem se vai. E ainda só pressinto,

não sinto,

as cores, as formas, os cheiros. Bebo tudo sôfrega.
É triste e melancólica a imagem que em mim carimbo, ali, em cheiro profundo de rio e adeus.

Acima da colina e do castelo, engolido em molhos verdejantes de árvores, desenham-se, aleatórias e desordenadas, nuvens em explosões de branco e azul e cinzento. 
E a sensação primeira, no balançar da maré, é tão somente de enjoo, aquele que faz prever a chuva que cai sem cerimónia, em soluço do céu.

Expiro-te Lisboa.

Ao fundo, espalhadas no chão, as casas asseguram-me, então, uma espécie de paz, num contraste absurdo com o caos escuro de rio e nuvem. Despontam brancas e amarelas e grandes e pequenas, todas quentes, todas diferentes, num amontoado morno e feliz de lares. 
E respiro, então,

Inspiro-te Lisboa,

cidade quente, branca e brilhante. 
Sei que me vês, ao fundo, sei que me acenas em despedida de maresia. E eu bebo-te toda, cidade que me viste menina, nesta obra em aguarela de alma.

E cravo, cá dentro, todas tuas curvas,

Lisboa menina e moça, Lisboa cidade maravilhosa.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Sempre capaz meu amor.

por Ana sem saltos, em 24.06.17

Entra no quarto. A noite caiu ainda agora, e na penumbra morna e de cheiro a criança, vê-lhe o corpo pequeno no descanso que dá sol ao seu coração de mãe.


O dia passou.

Mais um.


E dorme a menina,
e olha-a a mãe.

E nada no mundo é mais forte, nada no mundo vale mais, nada no mundo é mais assustador do que ter o coração assim exposto, a bater num corpo pequenino,

fora do peito,

dormindo num quarto morno e cor de rosa.

Senta-se à beira da filha e fecha os olhos.

Sei-me capaz.

Capaz apenas, o ponto não é o fim. O fim ficará lá a frente, não sei onde, se o tempo não me mora nem pertence. E graças a Deus que assim o é.

Por mais que se alinhem as estrelas, não sou escrita nem prevista.

Sou apenas capaz.

Capaz apenas, e o ponto não é final, é um ponto apenas, e eu, eu não sei nada, mas arrumo-me nos segundos que se acumulam, e me formam, e me tiram, e me dão.
De todos os vértices que me fazem, vejo, por fim, que não sou quadrada. Mas a linha que me une chegou de novo ao início.

E vejo-me de cima, quando no escuro dos olhos consigo caminhar às cegas para o sonho.

Caramba filha, sou um círculo,

não vejo nem prevejo nem o princípio e muito menos o fim...

E morra a carne, pouco importa.

Sou capaz de vida, de sonho, de linhas que me correm os pontos.

Sou capaz de ti, já viste?


Olho para ti aí a dormir. Tão pequenina minha menina. Não me ouves, pouco interessa. Despejo-te em murmúrio de canção de castelos e passarinhos, estas palavras que em mim voam. E talvez seja melhor assim. És linda e pequenina, e pode ser que assim te cosa um sonho de menina princesa. Onde mesmo pequenina serás capaz.

Sempre capaz meu amor.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Dança do vinho

por Ana sem saltos, em 22.06.17

Entorna, derrama a vida que verte da garrafa em forma de última gota. E o sangue que lhe corre nas veias, verte também em lágrima lambida, na cara, no corpo, na mão, no chão.

Bebe de um trago o resto minúsculo do copo sujo. Inclina o pescoço para trás, lambe o copo por dentro, numa procura desesperada de saciar aquela sede insaciável de embriaguez. Do momento em que sai de si e da casa e do corpo e do copo na mão, do momento em que evapora, em mancha etérea e vermelha, a lágrima última e derradeira, e mergulha, então, num estado de alma vazio e embrionário, no inicio de tudo mesmo antes do fim.

E é no nada que a ignora, no nada que em nada a define, é naquele breve momento em que ainda acordada se perde de si, no corpo e na alma, no silêncio vazio da voz e coração, que encontra, por fim, a paz. São segundos apenas, talvez nem isso, réstias de segundos separados entre si, e a paz nem é propriamente paz, é tão somente um vazio, escuro e profundo, que a engole faminto mesmo antes de a levar para a inconsciência.

 

Mas naquela noite, a gota não chega, e é a última do copo e da garrafa e da cozinha e da dispensa.  

 

Larga a garrafa e o copo.

 

Inspira fundo, ergue-se a medo da cadeira. Fecha os olhos e vê em alegre pânico, que ainda está em si.

Põe-se em pontas, levanta devagar a perna esquerda para trás. Inclina o corpo para a frente, sustendo-a apenas, o corpo e a leve embriaguez, as pontas dos dedos do pé direito. Inspira e expira contando os segundos, corpo direito, pescoço erguido,

e a gota da garrafa, ali, entornada no chão.

 

Desiste. Suporta de novo o corpo pesado nas duas pernas.

Abre os olhos, e olha à volta. O mundo roda sobre si, apesar da gota vertida no chão. Ergue os braços, esticados, direitos, infinitos, ergue o queixo, altivo na sua bêbeda  pequenez, e sorri. Lembrava-se ainda dos passos de ballet.

 

Esquece então o vácuo vazio, mole e peganhento. Esquece o medo e a procura incessante de nada. Esquece a lágrima, vertida e lambida, que lhe corre em rio de dentro para fora.

Roda sobre si, ignorando o enjoo e a tontura,

Seria da roda

Seria do vinho

Seria da bebedeira de alma que mesmo sóbria sempre lhe mora,

 

e roda uma vez mais, e outra e outra. Ergue a perna, dobra-a e toca com o pé esquerdo no joelho direito. Roda, ainda mais rápido. Roda ela e o mundo, em passo de dança de cisne, ocupa leve e etérea, solta e livre, a sala, a casa, o mundo e o céu.

 

E então é elevada no ar. Abre os olhos, num susto tonto. Roda o mundo, ainda, em reflexo da dança do vinho, e é elevada do chão segura pela cintura pelas mãos fortes dele. Roda-lhe o mundo ainda, em remoinho de água de chuva miúda, mas ele olha-a de frente, parando o triste rodopio, numa dança agora a dois.

Fundem-se as lágrimas e a tontura, ela vê-o mas longe, ele vê-a nas mãos, ali erguida dançando para si.

 

- Bebeste de novo?

 

Mas ela não o ouve. E a gota que não chega evapora do chão, e ela bebe-a de olhos fechados, rodopiando esticada, altiva e direita, segura no tronco da metade de si.

E então vai de novo, naqueles segundos que nem chegam a ser segundos, para o vazio que a recebe antes de adormecer.

 

E o corpo esguio e em rodopio, amolece num abraço que a acolhe.

 

Ele ajoelha-se no chão, com a embriaguez dela nos braços, encosta-lhe a boca na testa, e cheira-a chorando em soluço, sem o medo de ser tomado como fraco, assumindo a angústia perante a sua impotência, sem aplausos nem audiência para aquela dança que lhe leva a esperança. Chora entregue ao corpo mole e adormecido no seu abraço.

E ela de olhos fechados, sorrindo talvez, perdida uma vez mais no vazio de um sono sem sonhos.

E com a boca na testa, segura-a com força, aperta-a contra si, e sussurra entre o cheiro, o cabelo, as lágrimas misturadas dos dois,

Amo-te tanto... Sai daí, e volta para mim.

foto-post-paola-novaes-2.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Livro de vida (IV)

por Ana sem saltos, em 23.05.17

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

Terceira parte aqui

 

Há uma coisa importante que te devo dizer, antes de te contar a minha, que é a nossa, história. O amor, ao contrário do nos é imposto, do que aprendemos nas regras e culpas, atos e omissões, não tem forma e formato. O amor é antes uma forma de ser e sentir, e pode estar presente em qualquer momento da nossa vida, na amizade, na tristeza, na fé, na euforia. Na carne também, ainda que não seja esta a regra única e última de concretizar a urgência no amor.  Não sendo eu a mais sábia, creio que te posso afirmar agora, no fim da linha daquela que foi a minha vida. A única regra que baliza este que é o sentimento que nos inspira e aspira a poetas, é a entrega. Sem entrega, minha querida, não há nada, na verdade, mas muito menos há amor. E foi por isso que demorei tantos anos a perdoar a minha mãe, senhora altiva e imponente, depois de a ver ali, entregando-se no cume de si, sem olhos nem espartilhos. E agora que penso... foi a única vez que não lhe senti gelo na voz.

 

De volta a casa e às regras, novamente com rédea em si, Vera foge para o quarto, e depois de se secar deita-se na cama, inerte e exausta.

Há na lágrima um estranho poder de libertação. Ainda que não cure a dor, liberta-nos da tensão, e agora sentia-se profundamente cansada.

Batem à porta interrompendo-lhe o reconfortante vazio que conquistara para si. Vera senta-se na cama, de repente ansiosa e assustada, e se lhe vissem o que viu?

 

- Não me sinto bem, estou deitada.

 

Do outro lado um silêncio de eternos segundos.

 

A porta abre e a mãe entra.

Vera engole a raiva e o medo, e olha de frente a mãe. Sente a cara a ferver, num vómito surdo de perguntas que não pode fazer.

 

- Levanta-te. Hoje temos um jantar, o teu pai deve estar a chegar e convidou o novo médico. Tens meia hora para te arranjares.

A mãe vira-se novamente, direita e alta, linda e dura. Vera olha-a de trás, nunca seria assim, direita no torto, impecável no sujo, e sente-lhe um ódio profundo.

- Mãe?

 

A mãe vira-se e olha-a de cima, bonita e direita, linda e dura, uma estátua altiva, perfeita, gélida. Sorri para a filha, mas nos olhos, lá no fundo do poço azul, vê-lhe mais. Mágoa?

 

- Por amor de Deus Vera. Endireita-te. E arranja-me esse cabelo, não sejas vulgar.

Vera baixa o olhar, invadida, derepente, por uma vergonha enorme.

Vulgar. Não sejas vulgar.

E não perguntou, evidentemente, aquilo que nem sabia perguntar.

A porta bate, e ouve-se em eco nas paredes

És uma senhora Vera, é isso que esperamos de ti.

 

 E Vera levanta-se, olha-se no espelho,

ser sem parecer, vulgar na cara e no andar,

e escova com força o cabelo, negro, farto e solto, procurando restabelecer, ali, nos fios emaranhados e molhados de cabelo, a ordem na desordem de si.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Livro de vida (III)

por Ana sem saltos, em 12.05.17

 

Primeira parte aqui

Segunda parte aqui

 

A sensação primeira, foi a de queda no abismo. Queda a pique no vazio.

A reação à queda foi a de fugir. Abrir a porta e andar, andar depressa e a direito, passadas em frente, na procura de um destino ao soluço que a entope por dentro.

Não existe propriamente um pensamento, uma racionalização, só uma raiva enojada, um enjoo dorido e peganhento, e de repente o espaço é pequeno, as paredes esmagam-na, os castiçais e serviços de prata, os criados e as salas e salões, de repente o grande e bonito é minúsculo e sinistro, e esmaga-a, pisa-a de cima, mostra-lhe o pó por de trás das molduras.

Um vida inteira direita e regrada, tão bonita de se ver de fora, na casa e jardim, nome em figuras de cristal, a família elegante e imponente,

Uma senhora senta-se direita.

Uma senhora não se ri, sorri

Uma senhora não chora, sorri,

engole a lágrima, não sejas vulgar.

Endireita-te, olha para baixo,

Não interrompas, concorda,

Não fales de mais,

Não te cales tanto,

Segue atrás o teu pai, baixa o olhar,

Ajoelha-te na igreja, comunga de olhos fechados,

 

És uma senhora Vera, há um nome que carregas. Endireita-te e sorri,  é isso que esperamos de ti.

 

Dá-se conta, de repente, que não respira. Não sabe há quanto tempo, continua em frente direita, em passada rápida e ritmada, o céu escurece de forma drástica,

Costas direitas, não sejas vulgar,

Estarei a sorrir?

 

e o céu estoira em pranto.

E Vera expira, finalmente, num grito surdo que solta para dentro. Ensopada por fora, cabelo emaranhado, molhado, despenteado,

uma senhora...

 

o vestido cola-se nas pernas, sente peso no andar. Ao fundo vê a capela, e sente esperança, de súbito, no conforto dos bancos de madeira, cheiro a incenso e fé, para de andar e começa a correr, finalmente com um destino aos passos e lágrimas, finalmente com esperança de calma e respostas. Ordem. Desejo profundo de ordem na desordem.

Sobe as escadas, e a porta grande da pequena capela está fechada. Chove a cântaros, percebe, de repente, que a sua figura deve assustar, percebe, de repente, que a porta está fechada.

Não há ordem na desordem, nem respostas às perguntas.

Vera, que se espera senhora, é menina apenas, e não sabia do verniz que estala, não sabia da aparência que apenas parece, não sabia de nada, afinal. Senta-se nas escadas, já indiferente à chuva e ao que pode parecer vista de fora, indiferente ao vestido enlameado e pesado, à cara sem sorrir e assumidamente a chorar, é vulgar apenas, no choro em chuva em coro com o céu.

 

- Precisa de ajuda?

 

Assusta-se, levanta a cara, e olha à sua frente um rapaz senhor, como ela menina senhora, direito, alto, debaixo de um enorme chapéu preto. Baixa-se, entrega-lhe o chapéu e tira o casaco para lhe cobrir os ombros. Senta-se ao seu lado e acende um cigarro.

E Vera esquece que tem um nome e um peso, esquece que chove por dentro e por fora, esquece o que lhe esperam, de que lhe vale afinal?

 

- Peço desculpa, eu, bem, desculpe...

- Chamo-me João, cheguei agora. Esteja à vontade, a sério.

 

E encosta a cabeça no ombro do rapaz senhor, finalmente abrigada da chuva de fora, libertando sem pudor a chuva de dentro.

Só então permite que lhe venha em tiro a imagem,

 

Passa o corredor, é hora do chá,

o pai não está mas a mãe vai gostar de me ver a horas,

 

 

lembra-se do leque da mãe, volta atrás, tão bem posta e orgulhosa de saber as regras, mas não é perfeita,

és tão vulgar Vera,

tão gélida e limpa a sua voz, mãe,

 

 

e entra sem bater no quarto dos pais.

E o que primeiro não percebe em penumbra morna e de novo cheiro, visualiza em murro no estômago,

uma senhora não ri,

 

a gargalhada gemida de baixo dos lençóis,

Uma senhora não quer,

 

e a senhora querendo ali, deixando-se querer, despida, no vulto, nos vultos dos dois que não conhece,

Reconhece?


a mãe e o outro, no cheiro, na carne, no escuro, no riso, ombros, cabelos, mãos e pernas.

Uma senhora bate à porta Vera, endireita-te.

 

E Vera bate a porta e sai, engolindo o vómito que lhe sobe sem aviso a garganta.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D