Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Chorar para voar

por Ana sem saltos, em 22.01.18

Há uma senhora velhinha
Que anda lado a lado
com uma menina pequenina.

E juntas,
A senhora velhinha que conta a vida pelas rugas das mãos,
E a menina tão bonita, que conta esperança pelos cabelos em dança,
andam,
sempre,
lado a lado.

E se a senhora ensina a menina
A andar direita e precavida,
Olhando sempre para o chão,
Se lhe ensina a senhora velhinha
todas as coisas que viveu,
caminhando, lado a lado,
Agarrando a menina pela mão,
Segura no que sabe
por já ter sido e vivido,

Há um segundo em que a criança
Lhe larga a mão para correr.

Não viu nada de mais,
A menina de cabelos largados ao vento,
Era apenas um bando de gaivotas,
Que voou vendo a menina correr.

E ao fazê-lo,
a menina pequenina
de alma solta e livre pelo ar,
Mostra à senhora velhinha
Que fica para trás a chorar,

É bem possível cair, sabes?
Depois só tens de te levantar.

Para trás, a senhora velhinha
Nada pode fazer
Se não chamar pela menina.
Não a segue porque está presa
Na dura e fria segurança
de julgar conhecer onde a levam
Todos os passos e quedas,
mesmo antes de tentar andar.

Mas volta atrás a menina,
Que nada teme,
pois nada sabe,
E ri de coração aberto
Pintado, livre e mostrado
Na cara bonita e suja de areia.

Só quando estão à mesma altura,
Passado e futuro de joelhos no chão,
Lhe mostra a menina pequenina
A ferida em sangue na mão.

Até que lhe diz sorrindo,
A menina pequenina
Olhando de frente a velhinha no chão,

Se não correres, senhora,
Como vês as gaivotas em bando a voar?

Olho ao fundo a menina pequenina
Limpando as lágrimas da senhora velhinha.

E agradeço este quadro imenso

Vejo massa branca no ar
Das mil e uma gaivotas a voar,
Por cima da menina pequenina
Que ensina velhinha a chorar.

A9D523F0-4AF9-470F-86E5-A68B97CDCFF4.jpeg

Autoria e outros dados (tags, etc)


Conto-te

por Ana sem saltos, em 19.01.18

Olho-te no escuro. Respiras devagar, entregue ao mundo dos sonhos.

Lá fora o mundo desaba em água e frio, mas, aqui, não cabe tempestade ou arrepio.

Apagas-me os pecados, sendo só assim. Homem bonito, que escolheu dormir perto de mim.

 

Quando me mora a insónia, padeço de consciência afiada. Mergulho em angústias e questões, elevo-me ao mais bruto pesar.

Fico tão só, meu amor, quando não consigo sonhar...

 

E lá fora o mundo desaba, como espelho da tempestade que mora em mim, mas cá dentro estás tu, e eu ouço-te respirar. Pareces história de vida, daquelas que apetece contar.

E, então, conto-te.

 

Um, inspiro-me do teu inspirar,

Dois, expiro-me no teu expirar.

 

Acalmo-me, deixo amainar a existência bruta que por vezes sou, aceito o aleatório do mundo e das coisas, e concentro-me, só, na sorte de estar perto desta estrela, no meio todas as outras que se espalham no espaço.

 

Devagar, bem devagarinho, juntamo-nos no mesmo inspira e expira,

sigo sempre o teu compasso,

e desfaço-me em pincelada de aguarela nesse quadro bonito com que pintas os teus sonhos.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Dona Rosa

por Ana sem saltos, em 16.01.18

“Larga de ser miolo minino, vai brincar!”

Eu teria poucos anos, a julgar pela forma como me vejo sentado na cozinha, olhando hipnotizado para a Dona Rosa a descascar batatas.
A cozinha da minha infância é enorme. As bancadas de mármore eram inatingíveis e continham segredos doces e picantes, sonhos imensos, ali, temperados às mãos sábias de Dona Rosa.

E eu, era menino mesmo, e ansiava pelo tamanho de as poder ver,
[as bancadas e as mãos que lhes davam magia]
bastando para isso olhar.
Mas não podia, não tinha tamanho suficiente para dar liberdade ao meu olhar, e havia a Dona Rosa, guardiã dos segredos e especiarias, sempre com algum tacho ao lume, e uma colher na mão.

Mulher imensa em carnes e coração, que me gritava de tempos a tempos: “vai, xô, larga de ser miolo minino, vai brincar!”

Por mais que tentasse eu entender o que quereria Dona Rosa dizer com isto, imaginando-me, apavorado, em forma de miolo de noz, largado naquele imenso balcão, foi preciso ter altura suficiente para descobrir que não havia segredo algum naquele velho balcão,

[ah triste e irremediável virar de segundo, em que percebemos que o olhar é o assassino do ver,]

para perceber o que me dizia a mais sábia analfabeta, dona dos meus sonhos de criança, minha boa Dona Rosa.

“Larga de ser miolo menino vai brincar!”

Pena presente virar passado, e eu já não ser mais minino que sonha com os mistérios da bancada de cozinha,
[afinal é só um pequeno e velho balcão]
pena já se ter ido a Dona Rosa da história da minha vida.

Haveria de lhe dizer, lá no tom quente das selvas brasileiras dela:

Deixa de ser besta mulher. Nunca fui miolo não, eu sou mesmo é coração.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Triste

por Ana sem saltos, em 15.01.18

Fico triste, às vezes.
Não é sempre,
sempre é grande de mais

para ser somente tristeza. 

Mas, às vezes,
assim de tempos a tempos,
visto-me de melancolia e danço,
só assim,
numa homenagem nua e bruta
ao triste que há em mim.

E não é sempre,
sempre é imenso,
é às vezes,
quando cá dentro me sufoco de mim, e então preciso de ser chuva e trovão,

areia fininha entregue a furacão.

Não há causa óbvia,
tristeza é menina órfã,
mas é grande, soberbo, gigante,
este arrebatamento
que, às vezes,
resolvo trazer para mim.

Pode ser sol que brilha longe demais,
ou aguaceiro que morre a tentar chover.
Pode ser brisa morna em vésperas de lágrima,
ou gelo gelado em dia de verão.

Pode ser tudo, sendo nada,
porque tudo é infinito
e o nada não cabe em mim.
Mas fico triste, às vezes.
Afogada, entregue, derramada
na dança triste do assim assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Frio é falta de (D)deus

por Ana sem saltos, em 12.01.18

Há poesia nos recantos mais escondidos do mundo. Há poesia cantada, roçada em silêncio, em sonho moles e mornos, há tanta coisa escondida, ali, mesmo em frente aos teus olhos. Vês, querida? É aí que está Deus.

 

Sento-me, em frente ao fogo da minha lareira, e fecho os olhos. Preciso mesmo de saber o laranja das labaredas, preciso, mais do que tudo na vida, saber a que sabe a cor do fogo.

A escuridão, muitas vezes, é a única forma de ver, e quando só há um caminho possível, as coisas tornam-se irremediáveis.

Mas, por mais densa e negra que seja a minha escuridão, o laranja não se deixa provar. E, então, sinto na espinha uma espécie de golpe de frio,

e, então, outra vez, todo o ar do mundo não me chega para meio pulmão.

Levanto-me, subo as escadas, para ver a minha neta dormir. Bonita menina cigana, que me questiona tudo e não se satisfaz com respostas óbvias. Sinto uma melancolia milenar nos ossos, sei que o tempo é inevitável e os segundos vão fazê-la adulta.

Entalo-lhe as cobertas, mesmo sabendo que ela se voltará a destapar e abraçar o cobertor com as pernas.

Saio do quarto, volto a descer, encho o copo de vinho. Bebo de um trago, até sentir o calor da euforia na garganta. Encaro novamente o fogo de frente, mas tenho medo de fechar os olhos.

Queima-me, arde-me por dentro, mas tenho tanto frio. A velhice é gélida, e, há milhares de anos atrás, quando eu era criança por dentro e por fora, a minha avó dizia-me que o frio é a melhor explicação para a falta de fé.

A minha maior tristeza é a minha falta de inspiração. E todos sabemos que a inspiração inventa a fé, e sabe fazer  a chuva cantar poesia.

O tempo passou e agora sou menos que velho, reduzido a existência sem criança. Afogou-se, creio.

 

Mentira. Ah, que enorme mentira que sou.

 

Repugno-me, mas não posso morrer, porque há uma outra criança lá em cima, que dorme confiando na minha explicação de Deus.

E, no entanto, se eu fosse Deus... ah! faria, certamente, melhor. Faria, sem duvida, muito melhor.

Atiro o copo ao fogo, e bebo tudo diretamente do gargalo. 

A existência cansa-me, estoira-me, mata-me, mas o frio não me deixa morrer, e muito menos dormir.

 

sobre músicas que são histórias 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Talvez

por Ana sem saltos, em 10.01.18

95FE1438-34E1-4C4D-ADBA-3B62771F5AD3.jpeg

 

Naquela manhã, o sol resolveu lamber a terra com outra cor. Notei logo, ainda deitada na cama, olhando para a nesga de sol que aos poucos me entrou no quarto rasgando o mundo em dois.

 

Há luzes que rasgam o escuro, sabes?

 

Olho lentamente à volta. Tudo igual a ontem, graças a Deus.

 

Penso muitas vezes na repetição das coisas, e aí sou invadida por uma angústia miudinha e impertinente, que me devora a alma em medos e monstros. Nem sempre tenho força para segurar a rédea que lhe ponho, às vezes cedo, largo as rédeas aos meus monstros, que se foda, agora comam-se vivos.

 

Levanto-me, abro as cortinas, e a nesga de sol desaba-me, quebra-me, parte-me em onda de luz.

Lembro-me do nada da minha avó.

 

Às vezes penso de que são feitas as memórias... Decidi que não são filmes, nem fotografias, nem se quer quadros do que passou. São antes um soberbo e empoeirado livro, cheio de palavras que fazem guerras e amor.

 

- Oh avó é feliz?

- Talvez, querida, talvez...

 

Respondia-me sempre a tudo com um talvez, sábia senhora,

 

- Tem fome avó?

- Talvez, querida, talvez.

 

Quando era miúda sentia-me desamparada com esta resposta que deixa em aberto todas as possibilidades do mundo.

Agora, feitas as contas à vida que fui somando, acho que a entendo.

 

Talvez, sim. Talvez a entenda.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Contas-me a tua história?

por Ana sem saltos, em 05.01.18

És capaz de me dizer com que linhas coses o teu coração?

Sabes, pois, contar-me a que sabem as tuas lágrimas?

São doces na euforia? São amargas na solidão?

Sabes ler aquilo que está escrito em ti, usas bem a força que te move?

E acreditas em quê, afinal? Na imprevisibilidade do amanhã? Na fortuna do hoje? Ou na página virada que encerra o ontem?

 

- Cansas-me..

- Ora essa, porquê?

- Tu e essa tua mania de acreditares em contos de fadas...

- Não me venhas de novo com essa conversa de que não existem fadas!

- Cansas-me tanto, a sério...

 

Encaras-te de frente no espelho?

E além de ti, há o mundo? Que mundo é esse, amor, que se atreve a existir além de ti?

Conta-me, não precisas de falar. Mas contas-me, por favor, a tua história? Prometo que a sei guardar.

 

- Vamos dançar.

- Como assim, dançar?

- Assim, levantas-te, levantas-me. E depois fechas o olhos e beijas-me na boca.

 

Olha... Estás a sorrir?

 

- Isso não é dançar.

- Claro que é... só que tu não acreditas em fadas.

 

Diz-me lá, vá, antes de me beijares na boca e eu te ensinar a dançar.

Sabes que há histórias que são valsas, e dão mesmo para escrever a dois?

Autoria e outros dados (tags, etc)


A menina do piano

por Ana sem saltos, em 04.01.18

Era uma vez uma menina que tocava piano. A particularidade dessa menina que tocava piano, aquilo que a fazia sair do cardume de todas as meninas que tocam piano, é que essa menina não precisava, na verdade, de um piano para fazer música.

A música que lhe vinha, transcendia o marfim branco das teclas, transcendia as regras, escalas e partituras, transcendia, até, a melodia das próprias notas. E se, inicialmente, a menina se sentava sozinha compondo longas sonatas, de olhos fechados e mãos dançando no ar, ali no cume da ravina que eleva a vista até à curva que faz terminar o mundo, houve um dia em que a menina se encontrou com um piano de verdade. E habituada que estava a ir buscar o dó ao sopro de brisa de verão, o sol ao vendaval de tempestade, o mi e o ré ao estrondo de onda brava, não foi de estranhar, então, que ao tocar as teclas pelas primeira vez, fizesse nascer um novo mi, ou ré ou fá, numa música que sai e se toca muito além da melodia que cabe no ouvido.

Foi nesse dia que a menina que sabia de música sem jamais ter tocado piano, deixou, finalmente, de ser menina, elevando-se, para sempre, a música mulher.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Rodolfo

por Ana sem saltos, em 29.12.17

Carlos sabe, já, o que o espera, o drama deixou até de ser drama, tal é a repetição trágica e idêntica das coisas. A vida, do lado de lá e de cá das paredes bolorentas de casa, rege-se por uma rotina e horário implacáveis. Ordem na desordem.

Acorda, lava-se na casa de banho gelada, bebe um café longo, morno e aguado, e engole uma banana. Não se chega a olhar no espelho, não fica propriamente satisfeito com a imagem que o reflexo lhe devolve. É mais pálido do que se sente. É mais magro do que as roupas que veste. E depois há toda a questão dos olhos. Não gosta da verdade dos espelhos.

Põe a trela em Rodolfo, seu fiel e enorme cão, e sai por 8 minutos, antes de entrar no turno da manhã dos correios da cidade.

- Mãezinha! Volto às 5.

Mas a mãezinha não responde nunca, trancada que está numa espiral negra e muda, largada numa cama velha de um quarto escuro, gemendo lamúrias sem som. Mas, de tempos a tempos, sai-lhe o negro alma fora, e a senhora levanta-se, veste o seu melhor traje, e sai desnorteada para um mundo que não é do tempo em que adormeceu. E então, o pobre Carlos, chegando invariavelmente às 5 da tarde, lá encontra a cama vazia, as cuecas velhas da senhora mãe no chão, e um nauseabundo cheiro a perfume barato no quarto. Se, inicialmente, se enchia o peito de angústia, apavorado com a hipótese de um mundo vazio de mãe louca, passa o tempo e criam-se as rotinas, e também aquela triste e deprimente busca vira um hábito.

Foi como naquele dia.

Já sem sequer tirar o casaco, Carlos sente o cheiro a prostituta barata no hall de entrada. Entra na cozinha, retira do frigorífico um pequeno embrulho em papel pardo, coloca-o no bolso, e sai de casa. Põe a trela em Rodolfo, abre o portão e avança sereno. Vira a esquina, segue para a ruela velha e escura e suja. Põe, então, os joelhos no chão, e assume o papel do seu cão, farejando o ar.

- Cheira-te a puta Rodolfo?

Mas o cão não responde, ao fundo vêm a velha mãe de coxas moles de fora, proclamando versículos da bíblia enquanto um homem gigante e peludo, a monta como animal faminto. Carlos engole o vómito de sempre, retira um pedaço de carne da algibeira, atirando-o para perto daquele triste e repetido espetáculo. Ainda de gatas, atiça o velho amigo murmurando-lhe baixinho: tsss , ataca, tsss. E o cão, afável e mole, vira diabo raivoso, e avança em fúria para a carne podre que lhe atira o dono. Mas daquela vez, e contra a previsibilidade irremediavelmente idêntica de todas as outras, antes que o homem que lhe monta a mãe pudesse reagir, Carlos sente um estalo na espinha, semelhante à porta de um segredo antigo que se abre. A trela do fiel Rodolfo esmaga-lhe a traqueia, e no beco a mãezinha grita:

- Perdoa-os senhor! Perdoa-os que eles não sabem o que fazem!

Autoria e outros dados (tags, etc)


Surpresas no meu jardim

por Ana sem saltos, em 29.12.17

6E7A9112-01EA-4F37-9B6A-958DE1332E43.jpeg

 

Ou a bonança depois da tempestade.

Há sempre uma primavera que brota das lágrimas do céu.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D